
Rogério Massaro Suriani |
Se
você olhar novamente para o título deste
artigo, perceberá que ele pode ser lido com diferentes
entonações: uma mais leve e empolgada, que
convida a criar um novo curso, e outra mais pesada e tensa
que coloca em dúvida a possibilidade ou necessidade
de criar um curso novo.
Apesar
de a grafia ser rigorosamente a mesma, a forma que você
lê ou fala sobre este assunto, pode indicar o quanto
você e sua instituição estão
preparados adequadamente para a tarefa.
Em
um passado não muito distante, era suficiente uma
instituição de ensino superior criar um
novo curso para crescer. Mesmo sem muitos planejamentos
e cuidados os resultados já eram bons. Devido à
demanda reprimida daquele momento, novos alunos buscavam
rapidamente as vagas disponíveis e com isso, a
instituição ocupava novos mercados, aumentava
seu número de alunos, seu faturamento, enfim, ampliava
sua participação no mercado educacional
privado.
Menos
de uma década depois a realidade mudou drasticamente.
Há uma ampla oferta de títulos em diversas
áreas do conhecimento e cursos que chegam a 40
ou 50% de vagas ociosas. É comum você ouvir
dizer que atualmente só não estuda quem
não quer, pois até pessoas que não
possuem recursos financeiros suficientes, podem utilizar
diversos programas do governo e outras formas de financiamento
para ter acesso ao ensino superior.
Se
antes o planejamento estratégico e a gestão
profissional do setor educacional não foram tão
relevantes para estabelecer o futuro de uma instituição,
hoje eles são determinantes para decidir o sucesso
ou o fracasso até mesmo de um único curso.
A
elaboração de um novo curso hoje, seja ele
presencial ou a distância, só deve ser iniciada
após compreender o impacto do planejamento estratégico
da instituição e dos aspectos de gestão
envolvidos em sua criação, implantação
e operacionalização.
A
missão, os valores e as diretrizes estratégicas
necessitam ser considerados para garantir que o curso
a ser criado esteja alinhado com a proposta institucional.
Além disso, muitas pesquisas, levantamentos e análises
detalhadas de dados devem ser realizadas para confirmar
aspectos de viabilidade mercadológica, financeira,
adequação a proposta pedagógica,
e aderência a marca daquela instituição.
O
exaustivo trabalho prévio permite que os potenciais
alunos reconheçam vários pontos fortes no
seu produto e passe a desejá-lo, gerando assim
procura para todas as vagas ofertadas.
De
maneira simplista e resumida, para dedicar-se a preparação
de um novo curso é necessário:
1-
Acompanhar o mercado de trabalho e identificar tendências
e inovações que possam ser aproveitadas
na área educacional.
2- Identificar a demanda potencial para este mercado e
os possíveis concorrentes que possam vir a atuar
neste mercado, caso já não exista algum.
3- Verificar se a tendência é compatível
com a missão e o perfil institucional.
4- Traçar o perfil dos alunos que freqüentam
sua instituição e analisar se o curso a
ser proposto é adequado para o público que
você atua. Para o caso de educação
a distância, avaliar se o público alvo que
se pretende atingir em outras localidades é coerente
com a proposta de trabalho da instituição.
5- Procurar compor o novo curso com o mix de cursos já
ofertados na instituição, a fim de ganhar
em competitividade e fluxo de caixa a médio e longo
prazo.
6- Apontar claramente quais os diferenciais que seu curso
deverá possuir para manter a atratividade em relação
aos concorrentes.
Caso
estas etapas tenham sido concluídas com êxito
e ainda assim apontem favoravelmente para o desenvolvimento
do novo curso, ai sim você deverá preocupar-se
com os aspectos didáticos e pedagógicos,
sempre alinhado com o projeto pedagógico institucional,
o que dará uma linguagem única aos cursos
da instituição.
Se
você acha que o trabalho acaba quando o curso é
ofertado e atrai vários candidatos por vaga, está
enganado. Apenas a primeira etapa do projeto foi concluída.
Falta acompanhar o desenvolvimento do curso semestre a
semestre, preparar e dar apoio ao corpo docente durante
a construção e evolução do
curso, avaliando cada etapa e corrigindo o que julgar
necessário para atingir os objetivos de formação
dos alunos, propostos para o curso.
Ficando
atento a cada uma destas fases e realizando cada etapa
de forma cuidadosa, provavelmente sua instituição
terá mais um curso de sucesso e minimizará
os problemas que a falta de planejamento e gestão
costumam causar, a ociosidade de vagas e o futuro cancelamento
do curso.
Deixar
de ofertar um curso desgasta a imagem da instituição
perante alunos, professores e mercado de trabalho, transmite
a sensação de falta de qualidade, que pode
respingar em outros cursos da instituição
e permite que o mercado questione os resultados obtidos
até então, além de riscar a imagem
da instituição perante o mercado que emprega
os alunos.
Ninguém
desenvolve um curso sem estar totalmente certo de que
está realizando o melhor trabalho possível,
mas com planejamento e gestão adequados, ampliam
suas chances de sucesso, frente a um mercado que se modifica
rapidamente.
Para
concluir, não deixe que a pergunta inicial (Vamos
criar um curso novo?) tenha outra interpretação
na sua instituição, que não seja
o convite entusiasmado para criar um novo produto. Elabore
a estratégia, profissionalize a gestão e
sucesso.
Rogério
Massaro Suriani - Mais de 15 anos de carreira
na área de gestão educacional, desenvolvida
no ensino superior (graduação, pós-graduação,
extensão e pesquisa), ensino técnico e cursos
não regulamentados. Grande experiência em
gestão de unidades de negócios, elaboração
e implantação de planos estratégicos,
desenvolvimento de novos produtos e serviços e
gestão estratégica de recursos. Sólidos
conhecimentos em tecnologia da informação
e tecnologias educacionais, com ênfase em educação
à distância. Amplo conhecimento e experiência
em desenvolvimento de projetos e planos de negócios.
Foi Diretor da Faculdade Senac de Comunicação
e Artes e Reitor do Centro Universitário Senac.
Atualmente desenvolve projetos como consultor educacional.