CONSULTORIA
MAIO - 2008
M-learning (mobile learning) novas fronteiras para o aprendizado escolar

Prof. Dra. Stela Conceição Bertholo Piconez

O progresso técnico e tecnológico não trouxe soluções novas para antigas necessidades. O mundo mudou e novas necessidades têm sido criadas com seu desenvolvimento. A web (rede de informações) através da rede de computadores (internet) criou alternativas de informação absolutamente inéditas onde em escala mundial o universo cibernético se dividiu em centenas de milhões de pequenas unidades processadoras autônomas e interligadas entre si. Neste contexto os softwares conquistaram lugar de destaque, comandando quase tudo que os computadores fazem, deixando para as máquinas o papel de fornecer o ambiente físico, velocidade de processamento e capacidade de memória.

A crescente mobilidade das pessoas e objetos de informação sustenta o desenvolvimento e aplicação de Tecnologias de Informação e sem fio, como os assistentes digitais pessoais (PDA), computadores de mão, laptops e celulares com acesso à internet sem fio.

Sabemos que nossos alunos e professores são usuários das tecnologias de informação e de comunicação na vida cotidiana. Podemos inferir que hoje muitas atividades cotidianas já podem ser realizadas com significativa mobilidade de seus participantes e à medida que os aparelhos de telefonia celular e outras tecnologias móveis têm evoluído, novas possibilidades são criadas para a utilização destes dispositivos. Assim, os espaços de aprendizagem deixam de estarem restritos apenas a uma sala de aula ou a um momento formal de capacitação. De acordo com Sharples (2000) as tecnologias móveis potencializam a aprendizagem por toda a vida – individualizada, centrada no aprendiz, situada, colaborativa e ubíqua.

Por outro lado, as pesquisas sobre o tema precisam ser intensificadas no Brasil recomendada pelas suas dimensões geográficas e heterogeneidade cultural uma vez que não podemos deixar de considerar o caráter dúbio da tecnologia (CIBORRA, 2002). Se por um lado as tecnologias móveis possibilitam novos processos e práticas de aprendizagem com mobilidade, por outro, já foi verificado que o uso dessas tecnologias também pode ter decorrências negativas tais como a sobrecarga de informações; aumento da complexidade nas interações em diferentes locais e momentos (de forma síncrona a assíncrona), quebra de fronteiras entre vida pessoal e de trabalho com prejuízos à qualidade de vida dos seus usuários, entre outras (SACCOL e REINHARD, 2006; SORENSEN e GIBSON, 2003).

Também é necessário questionar se é possível aos nossos alunos efetivamente aprenderem com mobilidade ou se o chamado “m-learning” na verdade pode acabar por ficar restrito a um nível meramente informacional. No âmbito da educação, a utilização da tecnologia de computação móvel tem sido objeto de estudo quanto às suas contribuições para o processo de aprendizagem por permitirem aos alunos acessarem em qualquer tempo e lugar grande volume de informações.

Considerando-se uma perspectiva ainda mais ampla, os resultados das pesquisas em desenvolvimento (PICONEZ et al., Projeto UCA, 2008 ; SACCOL e REINHARD, 2004; SCORNAVACCA, BARNES e HUFF, 2005; BOWKER, 2000; TRIFONOVA, 2003; KOSCHEMBAHR, 2005) poderão contribuir também para subsidiar o desenvolvimento de aplicações de aprendizagem com mobilidade em outras áreas e setores. Apenas para ilustrar, atualmente o Brasil conta com mais de 90 milhões de usuários de telefonia móvel (ITWEB, 2006). Portanto, as perspectivas de uso dessa tecnologia para aprendizagem são cada vez mais potencializadas na medida em que os aparelhos de telefonia celular, amplamente inseridos no dia-a-dia das pessoas, ganham recursos mais sofisticados.

M-Learning, de mobile learning é a fusão de diversas tecnologias de processamento e comunicação de dados que permite ao um grupo de estudantes e aos professores uma maior interação. Basicamente, o M-Learning faz uso das tecnologias de redes sem fio através de dispositivos móveis (celulares, i-pods, laptops, rádio, TV, telefones, fax, PocketPCs, notebooks, TabletPCs) e dos novos recursos fornecidos pela telefonia celular, da linguagem XML, da linguagem JAVA, da linguagem WAP, dos serviços de correio de voz, serviços de mensagens curtas (SMS), da capacidade de transmissão de fotos, serviços de e-mail, múltimidia message service (MMS) além do uso de vídeo sob demanda.

Dentre suas funcionalidades estão as ações de enviar SMS, tirar fotos, gravar anotações, lembretes, despertar, jogar, ouvir músicas e sons, videoconferências e instalação de programas variados, que vão desde ler e-book até usar remotamente um computador qualquer, quando devidamente configurado. Implica atividades como (KRISTOFFERSEN e LJUNGBERG, 1998; WEILENMANN, 2003): andar ou movimentar-se em algum local específico, por exemplo, dentro de um depósito ou diferentes prédios ou salas para ir ao encontro de pessoas ou para atender a um evento; visitar (despender tempo em outros locais que não somente o local que serve como base para o trabalho por períodos temporários) viajar (ir de um lugar ao outro por meio de veículos - avião, trem, etc.); trabalhar em movimento (wandering) - implica mobilidade física e espacial à medida que o trabalho vai sendo realizado (por exemplo: um operador de caminhões em uma transportadora).

O projeto IDEA (Innovative Devices for Educational Assistance) realizado na Hallsville School (Virgínia) vem testando a eficiência de iPods Nanos e iPods Touches no cotidiano do aluno de ensino fundamental e médio. O diretor do distrito educacional, Mike Stanfield, afirma que se o projeto apresentar um aumento na retenção do conteúdo e no aprendizado, todo aluno poderá receber um iPod Nano or iPod Touch para o uso educacional. Para desenvolver o projeto foram distribuídos iPods para aproximadamente 65 estudantes. Os professores vêm selecionando materiais, como vídeos e arquivos de áudio para a relaização de tarefas em casa.
Os resultados preliminares indicam um ganho no aprendizado de alunos através do uso de "rich media" onde a combinação de áudio e vídeo vem se apresentando mais atrativa
do que a tradicional leitura.

Pode ser visto pela internet um vídeo (disponível no You Tube (youtube.com/watch?v=dGCJ46vyR9o) que mostra um panorama sobre a realidade de 200 estudantes norte-americanos que participaram de uma pesquisa realizada nos EUA (Universidade do Estado de Kansas). Entre diversos tópicos abordados, o vídeo demonstra como tecnologias como a internet, celulares e a tv estão influenciando a vida dos alunos.

Alguns dados são interessantes para que possamos refletir sobre o real engajamento do aluno dentro do processo de aprendizagem como, por exemplo, a leitura média de livros é de oito por ano, enquanto os alunos "surfam" por aproximadamente 2300 web-sites e 1281 profiles do Facebook (site de relacionamento análogo ao Orkut, bastante popular na América do Norte). São escritas, em média, 42 páginas para as aulas por semestre; número bastante inferior aos mais de 500 e-mails que são produzidos pelos mesmos estudantes.

Se é verdade que Mobile Learning abre novas fronteiras e cenários em educação dada suas características parece oportuno indagar sobre o impacto que pode causar na educação tradicional? Quais são as novas possibilidades de aprendizagem nas mais diferentes disciplinas do currículo escolar? Quais são as novas fronteiras para o aprendizado escolar?

Como sugerem diversos estudos (ALEXANDER,2004; SHIH & MILLS, 2007) a combinação da tecnologia wireless com computação móvel resulta numa transformação escalar no mundo da educação. Do que conhecemos sobre as teorias de aprendizagem (comportamentalismo, cognitivismo, interacionismo, aprendizagem social etc.), no caso de m-learning, cabe destacar certos aspectos mínimos que estão presentes: as novas oportunidades de aprendizagem, influência potencial de estilos de aprendizagem e de interação social. Saber como as pessoas aprendem e em que locais e como aprendem constituem temas de interesse não apenas para professores e educadores assim como para designers, tutores e profissionais da EaD. Muitos indivíduos entram neste campo sem quaisquer diretrizes pedagógicas. Baseado em investigações realizadas isto representa um grande desafio.

Como podemos utilizar as tecnologias móveis para melhorar o ensino e a aprendizagem em educação? Como podemos efetivamente motivar e envolver alunos online? Qual a contribuição que favorece o planejamento do uso pedagógico das tecnologias móveis em contexto tradicional de ensino?

Internacionalmente, investigação como a de ATTEWELL’S (2005) sobre o projeto M-Learn sugere que a utilização de tecnologia móvel tem trazido contribuição positiva como por exemplo: melhorar as capacidades de alfabetização e habilidades matemáticas e para reconhecimento de suas aptidões; M-learning pode ser utilizada para incentivar experiências colaborativas e independentes de aprendizagem; ajuda os alunos a identificar áreas onde eles precisam ajuda e apoio; M-learning ajuda a combater a resistência ao uso das TIC e pode ajudar a constituir uma ponte entre alfabetização e a alfabetização tecnológica; M-learning ajuda remover certa formalidade da experiência de aprendizagem e envolve mais alunos relutantes; M-learning ajuda na concentração do foco de aprendizagem para maiores tempos e períodos; M-learning ajuda na ampliação da auto-estima e 8 ajuda educar a auto- confiança (Attewell , 2005,p. 13)

As tecnologias móveis são o próximo passo da evolução do processo de ensino-aprendizagem. O uso de computadores no processo de ensino e de aprendizagem tem oferecido oportunidade para desenvolver a aprendizagem espontânea, pessoal, informal e contextualizada. Além disso, podemos constatar que os alunos têm acesso 24 horas por dia em qualquer local que estejam e a possibilidade de utilização de vários tipos de comunicação (i.e., chamada telefônica, voz / texto troca de mensagens, troca multimídia de mensagens, correio eletrônico, acesso à web) com tempo real de interação.

Nos projetos onde as tecnologias móveis estão integradas ao ambiente de sala de aula o que tem ocorrido é que a rigidez da formalidade das tendências pedagógicas presentes pode ser amenizada pela flexibilidade e autonomia nas escolhas e seleção das informações na construção de qualquer conhecimento. Fora da sala de aula, os alunos podem continuar aprendendo de acordo com suas necessidades individuais. Além disso, a teoria de desenvolvimento humano de Vygotsky destaca a relevância da aprendizagem social e da interação entre o aprendido num processo dialético de resolução de problemas em ação com os demais alunos. Por esta teoria reconhecemos então o valor do suporte dado pela aprendizagem de atividades através de dispositivos móveis, pois atende aos diferentes estilos de aprendizagem. Suas características podem facilitar as interações em grupo para colaboração; os alunos sentem-se motivados por conta da flexibilidade; são encorajados a colaborar e a qualidade de aprendizagem atinge níveis satisfatórios.

Avanços em tecnologias têm colocado mudanças no processo de aprender, não apenas para a educação formal quanto para educação online ou a distância. O uso da mobilidade na aprendizagem consegue envolver alunos de diferentes locais e experiências atendendo seus estilos de aprendizagem. Revela a necessidade de incorporação de novo conceito de ensino em um mundo repleto de informação e de constante transição.


Prof. Dra. Stela Conceição Bertholo Piconez - Professora Titular da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo - FEUSP, pesquisadora-líder do Grupo Alpha - CNPq, autora do Sistema Transversal de Ensino-Aprendizagem, membro do Grupo de Trabalho Um Computador por Aluno/MEC/SEAD.

Bibliografia

ALEXANDER, B. (2004). Going Nomadic: Mobile learning in higher education. EDUCAUSE Review 39(5), 28-35. Retrieved September 14, 2005 from: http://www.educause.edu/ir/library/pdf/erm0451.pdf

ATTEWELL, J. (2005). Mobile Technologies and Learning: A technology update and m-learning project summary. London: Learning and Skills Development Agency.

Keller, J. M. (1987). Development and use of the ARCS model of motivational design. Journal of Instructional Development, 10(3), 2-10.

BOWKER, R.R. Wireless Trainning or “m-learning” is here: first movers in the pool. Lifelong learning. Market report, (5:22), 2000.

CIBORRA, Claudio. The labyrinths of information. New York: Oxford Press, 2002.

ITWEB. Telefonia celular ultrapassa marca de 90 milhões de assinantes no País, 2006. Disponível
em: http://www.itweb.com.br/. Acesso em: 18 Mai. 2006.

KOSCHEMBAHR, Christopher Von. Mobile Learning: the next evolution. Chief Learning Officer, February 2005

KRISTOFFERSEN, Steinar; LJUNGBERG, Frederick. Representing modalitites in mobile computing In: Proceedings of Interactive Applications of Mobile Computing, (IMC'98), Rostock, Germany, November 1998.

SACCOL, Amarolinda; REINHARD, Nicolau. Tecnologias da Informação Móveis, Sem Fio e Ubíquas: Definições, Mapeamento do Estado-da-Arte e Oportunidades de Pesquisa. RAC – Revista de Administração Contemporânea – 2005.

SACCOL, Amarolinda; REINHARD, Nicolau. The Hospitality Metaphor as a theoretical lens to understand the process of ICT adoption. Journal of Information Technology (JIT), set. 2006

SCORNAVACCA, Eusebio; BARNES, Stuart; HUFF, Sid. Mobile Business research, 2000-2004: emergence, current status, and future opportunities. In: ECIS – European Conference on Information Systems, 2005.

SORENSEN, Carsten; GIBSON, David. Ubiquitous visions and opaque realities: professionals talking about mobile technologies, 2003. Global Mobility Roundtable, 2. Stockholm, 2003. Available at: http://mobility.lse.ac.uk. Accessed in: 11/01/05.

SHARPLES, Mike. The design of personal mobile Technologies for lifelong learning. Computers & Education, (34), pp 177-193, 2000.

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SHIH, Y.E. & MILLS, Dennis. Setting the New Standard with Mobile Computing in Online Learning, Volume 8, Number 2. June – 2007
http://www.irrodl.org/index.php/irrodl/article/view/361/929

TRIFONOVA, Anna. Mobile Learning – review of the literature. Technical Report DIT-03-009, University of Trento, March 2003. Available at:
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WEILENMANN, Alexandra. Doing Mobility. Göteborg, 2003. PhD thesis, Department of Informatics, Göteborg University.

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PARCERIA
DESTAQUE MÍDIA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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