Prof.
Dra. Stela Conceição Bertholo Piconez |
O
progresso técnico e tecnológico não
trouxe soluções novas para antigas necessidades.
O mundo mudou e novas necessidades têm sido criadas
com seu desenvolvimento. A web (rede de informações)
através da rede de computadores (internet) criou
alternativas de informação absolutamente
inéditas onde em escala mundial o universo cibernético
se dividiu em centenas de milhões de pequenas unidades
processadoras autônomas e interligadas entre si.
Neste contexto os softwares conquistaram lugar de destaque,
comandando quase tudo que os computadores fazem, deixando
para as máquinas o papel de fornecer o ambiente
físico, velocidade de processamento e capacidade
de memória.
A
crescente mobilidade das pessoas e objetos de informação
sustenta o desenvolvimento e aplicação de
Tecnologias de Informação e sem fio, como
os assistentes digitais pessoais (PDA), computadores de
mão, laptops e celulares com acesso à internet
sem fio.
Sabemos
que nossos alunos e professores são usuários
das tecnologias de informação e de comunicação
na vida cotidiana. Podemos inferir que hoje muitas atividades
cotidianas já podem ser realizadas com significativa
mobilidade de seus participantes e à medida que
os aparelhos de telefonia celular e outras tecnologias
móveis têm evoluído, novas possibilidades
são criadas para a utilização destes
dispositivos. Assim, os espaços de aprendizagem
deixam de estarem restritos apenas a uma sala de aula
ou a um momento formal de capacitação. De
acordo com Sharples (2000) as tecnologias móveis
potencializam a aprendizagem por toda a vida – individualizada,
centrada no aprendiz, situada, colaborativa e ubíqua.
Por
outro lado, as pesquisas sobre o tema precisam ser intensificadas
no Brasil recomendada pelas suas dimensões geográficas
e heterogeneidade cultural uma vez que não podemos
deixar de considerar o caráter dúbio da
tecnologia (CIBORRA, 2002). Se por um lado as tecnologias
móveis possibilitam novos processos e práticas
de aprendizagem com mobilidade, por outro, já foi
verificado que o uso dessas tecnologias também
pode ter decorrências negativas tais como a sobrecarga
de informações; aumento da complexidade
nas interações em diferentes locais e momentos
(de forma síncrona a assíncrona), quebra
de fronteiras entre vida pessoal e de trabalho com prejuízos
à qualidade de vida dos seus usuários, entre
outras (SACCOL e REINHARD, 2006; SORENSEN e GIBSON, 2003).
Também
é necessário questionar se é possível
aos nossos alunos efetivamente aprenderem com mobilidade
ou se o chamado “m-learning” na verdade
pode acabar por ficar restrito a um nível meramente
informacional. No âmbito da educação,
a utilização da tecnologia de computação
móvel tem sido objeto de estudo quanto às
suas contribuições para o processo de aprendizagem
por permitirem aos alunos acessarem em qualquer tempo
e lugar grande volume de informações.
Considerando-se
uma perspectiva ainda mais ampla, os resultados das pesquisas
em desenvolvimento (PICONEZ et al., Projeto UCA, 2008
; SACCOL e REINHARD, 2004; SCORNAVACCA, BARNES e HUFF,
2005; BOWKER, 2000; TRIFONOVA, 2003; KOSCHEMBAHR, 2005)
poderão contribuir também para subsidiar
o desenvolvimento de aplicações de aprendizagem
com mobilidade em outras áreas e setores. Apenas
para ilustrar, atualmente o Brasil conta com mais de 90
milhões de usuários de telefonia móvel
(ITWEB, 2006). Portanto, as perspectivas de uso dessa
tecnologia para aprendizagem são cada vez mais
potencializadas na medida em que os aparelhos de telefonia
celular, amplamente inseridos no dia-a-dia das pessoas,
ganham recursos mais sofisticados.
M-Learning,
de mobile learning é a fusão de
diversas tecnologias de processamento e comunicação
de dados que permite ao um grupo de estudantes e aos professores
uma maior interação. Basicamente, o M-Learning
faz uso das tecnologias de redes sem fio através
de dispositivos móveis (celulares, i-pods, laptops,
rádio, TV, telefones, fax, PocketPCs, notebooks,
TabletPCs) e dos novos recursos fornecidos pela telefonia
celular, da linguagem XML, da linguagem JAVA, da linguagem
WAP, dos serviços de correio de voz, serviços
de mensagens curtas (SMS), da capacidade de transmissão
de fotos, serviços de e-mail, múltimidia
message service (MMS) além do uso de vídeo
sob demanda.
Dentre
suas funcionalidades estão as ações
de enviar SMS, tirar fotos, gravar anotações,
lembretes, despertar, jogar, ouvir músicas e sons,
videoconferências e instalação de
programas variados, que vão desde ler e-book até
usar remotamente um computador qualquer, quando devidamente
configurado. Implica atividades como (KRISTOFFERSEN e
LJUNGBERG, 1998; WEILENMANN, 2003): andar ou movimentar-se
em algum local específico, por exemplo, dentro
de um depósito ou diferentes prédios ou
salas para ir ao encontro de pessoas ou para atender a
um evento; visitar (despender tempo em outros locais que
não somente o local que serve como base para o
trabalho por períodos temporários) viajar
(ir de um lugar ao outro por meio de veículos -
avião, trem, etc.); trabalhar em movimento (wandering)
- implica mobilidade física e espacial à
medida que o trabalho vai sendo realizado (por exemplo:
um operador de caminhões em uma transportadora).
O
projeto IDEA (Innovative Devices for Educational Assistance)
realizado na Hallsville School (Virgínia) vem testando
a eficiência de iPods Nanos e iPods Touches no cotidiano
do aluno de ensino fundamental e médio. O diretor
do distrito educacional, Mike Stanfield, afirma que se
o projeto apresentar um aumento na retenção
do conteúdo e no aprendizado, todo aluno poderá
receber um iPod Nano or iPod Touch para o uso educacional.
Para desenvolver o projeto foram distribuídos iPods
para aproximadamente 65 estudantes. Os professores vêm
selecionando materiais, como vídeos e arquivos
de áudio para a relaização de tarefas
em casa.
Os resultados preliminares indicam um ganho no aprendizado
de alunos através do uso de "rich media"
onde a combinação de áudio e vídeo
vem se apresentando mais atrativa
do que a tradicional leitura.
Pode
ser visto pela internet um vídeo (disponível
no You Tube (youtube.com/watch?v=dGCJ46vyR9o) que mostra
um panorama sobre a realidade de 200 estudantes norte-americanos
que participaram de uma pesquisa realizada nos EUA (Universidade
do Estado de Kansas). Entre diversos tópicos abordados,
o vídeo demonstra como tecnologias como a internet,
celulares e a tv estão influenciando a vida dos
alunos.
Alguns
dados são interessantes para que possamos refletir
sobre o real engajamento do aluno dentro do processo de
aprendizagem como, por exemplo, a leitura média
de livros é de oito por ano, enquanto os alunos
"surfam" por aproximadamente 2300 web-sites
e 1281 profiles do Facebook (site de relacionamento análogo
ao Orkut, bastante popular na América do Norte).
São escritas, em média, 42 páginas
para as aulas por semestre; número bastante inferior
aos mais de 500 e-mails que são produzidos pelos
mesmos estudantes.
Se
é verdade que Mobile Learning abre novas
fronteiras e cenários em educação
dada suas características parece oportuno indagar
sobre o impacto que pode causar na educação
tradicional? Quais são as novas possibilidades
de aprendizagem nas mais diferentes disciplinas do currículo
escolar? Quais são as novas fronteiras para o aprendizado
escolar?
Como
sugerem diversos estudos (ALEXANDER,2004; SHIH & MILLS,
2007) a combinação da tecnologia wireless
com computação móvel resulta numa
transformação escalar no mundo da educação.
Do que conhecemos sobre as teorias de aprendizagem (comportamentalismo,
cognitivismo, interacionismo, aprendizagem social etc.),
no caso de m-learning, cabe destacar certos aspectos
mínimos que estão presentes: as novas oportunidades
de aprendizagem, influência potencial de estilos
de aprendizagem e de interação social. Saber
como as pessoas aprendem e em que locais e como aprendem
constituem temas de interesse não apenas para professores
e educadores assim como para designers, tutores e profissionais
da EaD. Muitos indivíduos entram neste campo sem
quaisquer diretrizes pedagógicas. Baseado em investigações
realizadas isto representa um grande desafio.
Como
podemos utilizar as tecnologias móveis para melhorar
o ensino e a aprendizagem em educação? Como
podemos efetivamente motivar e envolver alunos online?
Qual a contribuição que favorece o planejamento
do uso pedagógico das tecnologias móveis
em contexto tradicional de ensino?
Internacionalmente,
investigação como a de ATTEWELL’S
(2005) sobre o projeto M-Learn sugere que a utilização
de tecnologia móvel tem trazido contribuição
positiva como por exemplo: melhorar as capacidades de
alfabetização e habilidades matemáticas
e para reconhecimento de suas aptidões; M-learning
pode ser utilizada para incentivar experiências
colaborativas e independentes de aprendizagem; ajuda os
alunos a identificar áreas onde eles precisam ajuda
e apoio; M-learning ajuda a combater a resistência
ao uso das TIC e pode ajudar a constituir uma ponte entre
alfabetização e a alfabetização
tecnológica; M-learning ajuda remover certa formalidade
da experiência de aprendizagem e envolve mais alunos
relutantes; M-learning ajuda na concentração
do foco de aprendizagem para maiores tempos e períodos;
M-learning ajuda na ampliação da
auto-estima e 8 ajuda educar a auto- confiança
(Attewell , 2005,p. 13)
As
tecnologias móveis são o próximo
passo da evolução do processo de ensino-aprendizagem.
O uso de computadores no processo de ensino e de aprendizagem
tem oferecido oportunidade para desenvolver a aprendizagem
espontânea, pessoal, informal e contextualizada.
Além disso, podemos constatar que os alunos têm
acesso 24 horas por dia em qualquer local que estejam
e a possibilidade de utilização de vários
tipos de comunicação (i.e., chamada telefônica,
voz / texto troca de mensagens, troca multimídia
de mensagens, correio eletrônico, acesso à
web) com tempo real de interação.
Nos
projetos onde as tecnologias móveis estão
integradas ao ambiente de sala de aula o que tem ocorrido
é que a rigidez da formalidade das tendências
pedagógicas presentes pode ser amenizada pela flexibilidade
e autonomia nas escolhas e seleção das informações
na construção de qualquer conhecimento.
Fora da sala de aula, os alunos podem continuar aprendendo
de acordo com suas necessidades individuais. Além
disso, a teoria de desenvolvimento humano de Vygotsky
destaca a relevância da aprendizagem social e da
interação entre o aprendido num processo
dialético de resolução de problemas
em ação com os demais alunos. Por esta teoria
reconhecemos então o valor do suporte dado pela
aprendizagem de atividades através de dispositivos
móveis, pois atende aos diferentes estilos de aprendizagem.
Suas características podem facilitar as interações
em grupo para colaboração; os alunos sentem-se
motivados por conta da flexibilidade; são encorajados
a colaborar e a qualidade de aprendizagem atinge níveis
satisfatórios.
Avanços
em tecnologias têm colocado mudanças no processo
de aprender, não apenas para a educação
formal quanto para educação online ou a
distância. O uso da mobilidade na aprendizagem consegue
envolver alunos de diferentes locais e experiências
atendendo seus estilos de aprendizagem. Revela a necessidade
de incorporação de novo conceito de ensino
em um mundo repleto de informação e de constante
transição.
Prof.
Dra. Stela Conceição Bertholo Piconez
- Professora Titular da Faculdade de Educação
da Universidade de São Paulo - FEUSP, pesquisadora-líder
do Grupo Alpha - CNPq, autora do Sistema Transversal de
Ensino-Aprendizagem, membro do Grupo de Trabalho Um Computador
por Aluno/MEC/SEAD.
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