No
último artigo, publicado pela Humus News em novembro
de 2007, deixei um questionamento: o que determina o sucesso
de uma organização educacional? Escuto essa questão
desde o primeiro projeto de gestão estratégica
que trabalhei, realizado em uma pequena escola do Rio de Janeiro.
E desde então a resposta é a mesma: ninguém
pode garantir o sucesso rápido de um negócio educacional
sem antes conhecer profundamente suas crenças educacionais,
metodologias, equipes de funcionários e docentes, plano
de desenvolvimento de pessoal, além da sua missão,
visão e plano estratégico.
O
sucesso de uma empresa não pode ser determinado apenas
por uma ação, um projeto ou uma dimensão
do negócio. O sucesso é sempre conseqüência
de uma série de atitudes organizacionais, frutos de escolhas
acertadas do seu gestor, sempre coerentes às crenças
educacionais traduzidas em metodologias aplicadas em sala de
aula.
Mas,
para começar a pensar nas atitudes organizacionais é
necessário entender o que é o serviço educacional.
Segundo LOVELOCK e WRIGHT (2001), o serviço educacional
é classificado como ações intangíveis,
de entrega contínua, realizadas simultaneamente entre
a organização e seu cliente, e, apesar de proporcionar
um alto contato pessoal, é de baixa customização.
A competitividade do setor educacional leva o cliente a perceber
que o serviço pode ser agregado a valores até
então não cobrados, como por exemplo, instalações
físicas compatíveis com o valor pago, melhor atendimento
aos pais, participação no processo de decisão
pedagógica e inserção de novas tecnologias
à educação. E, já que o cliente
é aquele que recebe e usufrui o serviço educacional,
não é possível restringi-lo apenas a atividade
de aprendizagem do aluno.
Os
estudos já realizados sobre o sucesso em organizações
educacionais apontam que é necessário investir
em metodologias e pessoas. A dissertação de mestrado
de SANTOS (2000), por exemplo, propõe a análise
do comportamento de atração e manutenção
de alunos em escolas de idiomas. Como resultado a autora afirma
que quanto maior o tempo de permanência de professores
na instituição, maior a taxa de manutenção
dos alunos.
Em
artigo apresentado por MARTINS (2004) no XXVIII Encontro da
Associação Nacional de Pós-graduação
e Pesquisa em Administração – EnANPAD, são
relacionados o desempenho educacional e o desempenho financeiro
em uma organização educacional de Ensino Básico.
Segundo o autor, realizar investimentos no gerenciamento de
práticas relacionadas à melhoria de indicadores
de desempenho educacionais, provavelmente resultará em
desempenho financeiro satisfatório. Isso quer dizer que
ao determinar, acompanhar e gerenciar indicadores educacionais,
com desenvolvimento ou incorporação de novas metodologias,
a organização educacional estará mais próxima
da melhoria de seu resultado financeiro. E isso só é
possível se a escola investir em seu quadro de profissionais
que trabalham com o desenvolvimento educacional (coordenadores,
professores e auxiliares).
Esses
estudos indicam que, ao investir em novas metodologias educacionais
e na capacitação e manutenção dos
professores, a escola consegue obter melhores resultados gerenciais,
financeiros e pedagógicos, já que essa se torna
a melhor maneira de tangibilizar o serviço educacional.
Em
uma organização que viabiliza a construção
de conhecimento, como uma escola, a primeira ação
a ser tomada para o desenvolvimento de pessoas é a identificação
do potencial de conhecimento da organização. É
necessário buscar o que a organização sabe
e transformar este conhecimento tácito em conhecimento
reutilizável e acessível. A segunda ação
é garantir a criação de conhecimentos únicos,
que podem ser aproveitados em atividades criadoras de valor
ou com a finalidade de melhorar a utilização de
conhecimentos considerados públicos, por estarem acessíveis
a todos, sejam da empresa ou de seus concorrentes (PORTER, FAJEY
e NARAYANAN, apud VON KROGH, 2001). E em uma atividade em que
trabalhamos com pessoas para educar pessoas, a organização
apenas constrói conhecimento se todos os colaboradores
(do zelador ao diretor) participarem ativamente do processo.
Portanto,
são compreendidos como fatores críticos de sucesso
para uma organização educacional: o desenvolvimento
do processo de gestão do conhecimento alinhado à
clareza da visão da empresa por sua liderança;
a valorização e manutenção do quadro
de professores e funcionários; e o desenvolvimento dos
colaboradores da organização.
Mas,
como as empresas que não são do setor educacional
entendem a relação entre o conhecimento e o sucesso?
O National Institute of Standards and Technology –
NIST realiza, desde 1987, o Baldrige National Quality Program,
que estabelece critérios educacionais para excelência
em performance para a premiação de empresas dos
Estados Unidos. Os critérios foram desenhados para ajudar
organizações a desenvolver sistemas de gerenciamento
de performance e monitoramento de resultados em três principais
áreas:
1
- Qualidade da educação e da estabilidade organizacional;
2 - Eficácia organizacional e capacitações;
3 - Aprendizagem organizacional e pessoal.
Ao
determinar as áreas a serem avaliadas, o Instituto leva
em consideração valores e conceitos relacionados
à liderança, aprendizagem voltada para a educação,
capacidade de aprendizagem dos indivíduos da empresa,
qualidade dos colaboradores de apoio e parceiros estratégicos,
agilidade, foco no futuro, capacidade de gerenciamento de inovações,
gerenciamento de fatos imediatos, responsabilidade social, foco
no resultado e na criação de valor e atendimento
das necessidades dos clientes.
Os
fatores analisados pelo Instituto se confundem com os descritos
anteriormente. Ao prezar pela qualidade dos colaboradores de
apoio, compreende-se que todos da organização
educacional devem ser desenvolvidos. Ao cobrar a manutenção
do foco no futuro, deposita-se sobre a liderança da organização
a manutenção da clareza da visão aliada
ao desenvolvimento do processo de gestão do conhecimento.
Ao analisar a capacidade de aprendizagem dos indivíduos
da escola, questiona-se sobre a competência que a organização
adquiriu para atrair, desenvolver e manter os professores e
demais colaboradores.
Dessa
maneira, compreende-se que, para as organizações
educacionais, os fatores críticos de sucesso estão
relacionados com o poder de atrair e manter talentos através
do desenvolvimento dos seus colaboradores, mantendo em sua liderança
pessoas capazes de alinhar a visão da empresa com o desejo
de todos.
Essa
conclusão traz outro questionamento: COMO atrair, manter
e desenvolver talentos em organizações educacionais,
respeitando o orçamento? Não deixe de ler a resposta
no próximo artigo.
Denis
Drago - Responsável por projetos especiais do
Centro de Tecnologia e Gestão Educacional do Senac Rio,
conteudista da Pós-graduação em Gestão
Educacional do Senac, consultor de organizações
educacionais públicas e privadas de Ensino Básico
e Superior há 17 anos, Pedagogo, Pós-graduado
em Gestão de Pequenas e Médias Empresas pela FGV
– RJ, mestrando em Administração, Educação
e Comunicação pela Universidade São Marcos
– SP.