CONSULTORIA

Oportunidade no Lixo
Marcelo Freitas

É impressionante como algumas pessoas conseguem enxergar oportunidades onde outros vêm apenas o fim da linha. Impressiona, também, como a sociedade atual produz uma enorme quantidade de lixo, fruto de um consumismo crescente e da falta de atenção para com o meio ambiente.

Juntando as duas coisas, um jovem húngaro de apenas 24 anos vem ganhando destaque na imprensa mundial. Percebendo o aumento da sensibilidade das pessoas para uma visão de mundo sustentável, este jovem, que na época estudava na Princeton University, criou um negócio interessante: ele produz adubo orgânico aproveitando o lixo descartado por empresas e pessoas da cidade de Trenton, onde instalou sua fábrica.

O adubo, atestado como de alta qualidade, é o chamado “chá vermicomposto”, uma mistura feita a partir do excremento de minhocas vermelhas que se banquetearam domo vários tipos de lixo orgânico. Ao expelirem seus restos, produzem a matéria prima para a produção do adubo. Mas a criatividade deste jovem empreendedor não pára por aí. Na verdade é aí que ela começa.

Toda a fábrica e tudo o que é utilizado nas suas instalações, desde a linha de produção até os rótulos das embalagens, é fruto da reciclagem de lixo. Dos computadores descartados pelas grandes empresas (elas trocam seus equipamentos anualmente) até o mobiliário, passando pelas caixas para transporte e as garrafas de refrigerantes reutilizadas, que servem de contêineres para armazenar o adubo, este jovem vem revolucionando a produção deste tipo de produto.

Trata-se de um modelo de negócios turbinado pela criatividade de seus colaboradores e pelo senso de empreendedorismo que permeia a cultura americana. Esse estímulo à realização de negócios começa pelas gincanas dentro das escolas, onde os alunos são chamados a apresentar planos de negócios sobre novos empreendimentos. Esses projetos são avaliados e os melhores são recompensados com recursos e assistência de profissionais experientes, através de incubadoras de empresas. É comum também a realização de concursos de planos de negócios patrocinados por empresas, em nível nacional. Os melhores são agraciados com prêmios em dinheiro que os ajudam a colocar suas idéias nas ruas.

Foi assim que Tom começou esta experiência que tem despertado a atenção da comunidade de negócios americana. Ao ganhar inúmeros prêmios com o plano de negócios do adubo orgânico (o maior deles no valor de um milhão de dólares), ele foi capaz de conseguir que empresas do porte da Home Depot, um dos maiores varejistas de massa americanos, colocasse em suas prateleiras o seu produto, o TerraCycle.

Além de construir uma fábrica inteira a partir do lixo, por meio de uma engenhosa estratégia de comunicação, ele conseguiu atrair a atenção da mídia para sua iniciativa (é constante seu aparecimento em entrevistas na TV, no New York Times e em revistas de negócios). Possibilitou com isso, que sua empresa fosse divulgada e, consequentemente, tornou-se conhecido. Isso o ajudou a captar recursos de capitalistas de risco para bancar investimentos na produção e contratar pessoal experiente para ajudar a tocar o negócio, fornecendo credibilidade para os investidores. Como parte dessa estratégia de marketing e produção, Tom criou a Brigada de Garrafas da TerraCycle. Com ela envolveu os alunos do ensino fundamental das escolas da região para formar um exército de catadores de embalagens de refrigerante usadas, assim manter um grande estoque para seu produto. Para cada garrafa recolhida pelos alunos, a TerraCycle remunera a escola em 5 centavos de dólar. Esse valor é o dobro do que ela normalmente pagaria aos recicladores. No entanto, além do valor pedagógico para os alunos e a mensagem de preservação ambiental embutida na ação, a escola também sai ganhando, pois consegue recursos adicionais para seus projetos educacionais. No fim das contas, todos lucram.

Iniciativas como esta, entretanto, precisam de um ambiente favorável para prosperar. Ao unir forças com a sociedade, através do estímulo concreto ao exercício da inovação e do empreendedorismo, as escolas formam um berço onde acalentam jovens promissores. Por sua vez, capitalistas de risco e empresas interessadas em ampliar seus negócios, proporcionam recursos para que eles surjam com vigor e floresçam saudáveis. Finalmente, ao contar com mentores tarimbados, os jovens ganham a bagagem de conhecimentos e habilidades que os credenciam a se formar de maneira mais sólida para enfrentar o mundo dos negócios.

Casos como esse nos mostra o quanto os gestores educacionais podem fazer a partir de rupturas com práticas educacionais caducas e uma grande dose de criatividade. Explorar ao máximo a capacidade de jovens talentos, estimulando-os a inovar, requer uma gestão comprometida com resultados que contamine todo o ambiente escolar, no qual a competência e a flexibilidade tornam-se requisitos e características marcantes.

Numa sociedade assim, a prosperidade pode vir, até mesmo, do lixo.

Marcelo Freitas
Diretor da Corporate Gestão Empresarial e coordenador do Movimento Escola Responsável, consultor nos segmentos de educação e do terceiro setor, com ênfase em programas de Responsabilidade Social e Voluntariado, Gestão Estratégica, Recursos Humanos e Marketing.

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