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É
impressionante como algumas pessoas conseguem enxergar oportunidades
onde outros vêm apenas o fim da linha. Impressiona, também,
como a sociedade atual produz uma enorme quantidade de lixo, fruto
de um consumismo crescente e da falta de atenção para
com o meio ambiente.
Juntando
as duas coisas, um jovem húngaro de apenas 24 anos vem ganhando
destaque na imprensa mundial. Percebendo o aumento da sensibilidade
das pessoas para uma visão de mundo sustentável, este
jovem, que na época estudava na Princeton University,
criou um negócio interessante: ele produz adubo orgânico
aproveitando o lixo descartado por empresas e pessoas da cidade
de Trenton, onde instalou sua fábrica.
O
adubo, atestado como de alta qualidade, é o chamado “chá
vermicomposto”, uma mistura feita a partir do excremento de
minhocas vermelhas que se banquetearam domo vários tipos
de lixo orgânico. Ao expelirem seus restos, produzem a matéria
prima para a produção do adubo. Mas a criatividade
deste jovem empreendedor não pára por aí. Na
verdade é aí que ela começa.
Toda
a fábrica e tudo o que é utilizado nas suas instalações,
desde a linha de produção até os rótulos
das embalagens, é fruto da reciclagem de lixo. Dos computadores
descartados pelas grandes empresas (elas trocam seus equipamentos
anualmente) até o mobiliário, passando pelas caixas
para transporte e as garrafas de refrigerantes reutilizadas, que
servem de contêineres para armazenar o adubo, este jovem vem
revolucionando a produção deste tipo de produto.
Trata-se
de um modelo de negócios turbinado pela criatividade de seus
colaboradores e pelo senso de empreendedorismo que permeia a cultura
americana. Esse estímulo à realização
de negócios começa pelas gincanas dentro das escolas,
onde os alunos são chamados a apresentar planos de negócios
sobre novos empreendimentos. Esses projetos são avaliados
e os melhores são recompensados com recursos e assistência
de profissionais experientes, através de incubadoras de empresas.
É comum também a realização de concursos
de planos de negócios patrocinados por empresas, em nível
nacional. Os melhores são agraciados com prêmios em
dinheiro que os ajudam a colocar suas idéias nas ruas.
Foi
assim que Tom começou esta experiência que tem despertado
a atenção da comunidade de negócios americana.
Ao ganhar inúmeros prêmios com o plano de negócios
do adubo orgânico (o maior deles no valor de um milhão
de dólares), ele foi capaz de conseguir que empresas do porte
da Home Depot, um dos maiores varejistas de massa americanos,
colocasse em suas prateleiras o seu produto, o TerraCycle.
Além
de construir uma fábrica inteira a partir do lixo, por meio
de uma engenhosa estratégia de comunicação,
ele conseguiu atrair a atenção da mídia para
sua iniciativa (é constante seu aparecimento em entrevistas
na TV, no New York Times e em revistas de negócios). Possibilitou
com isso, que sua empresa fosse divulgada e, consequentemente, tornou-se
conhecido. Isso o ajudou a captar recursos de capitalistas de risco
para bancar investimentos na produção e contratar
pessoal experiente para ajudar a tocar o negócio, fornecendo
credibilidade para os investidores. Como parte dessa estratégia
de marketing e produção, Tom criou a Brigada de Garrafas
da TerraCycle. Com ela envolveu os alunos do ensino fundamental
das escolas da região para formar um exército de catadores
de embalagens de refrigerante usadas, assim manter um grande estoque
para seu produto. Para cada garrafa recolhida pelos alunos, a TerraCycle
remunera a escola em 5 centavos de dólar. Esse valor é
o dobro do que ela normalmente pagaria aos recicladores. No entanto,
além do valor pedagógico para os alunos e a mensagem
de preservação ambiental embutida na ação,
a escola também sai ganhando, pois consegue recursos adicionais
para seus projetos educacionais. No fim das contas, todos lucram.
Iniciativas
como esta, entretanto, precisam de um ambiente favorável
para prosperar. Ao unir forças com a sociedade, através
do estímulo concreto ao exercício da inovação
e do empreendedorismo, as escolas formam um berço onde acalentam
jovens promissores. Por sua vez, capitalistas de risco e empresas
interessadas em ampliar seus negócios, proporcionam recursos
para que eles surjam com vigor e floresçam saudáveis.
Finalmente, ao contar com mentores tarimbados, os jovens ganham
a bagagem de conhecimentos e habilidades que os credenciam a se
formar de maneira mais sólida para enfrentar o mundo dos
negócios.
Casos
como esse nos mostra o quanto os gestores educacionais podem fazer
a partir de rupturas com práticas educacionais caducas e
uma grande dose de criatividade. Explorar ao máximo a capacidade
de jovens talentos, estimulando-os a inovar, requer uma gestão
comprometida com resultados que contamine todo o ambiente escolar,
no qual a competência e a flexibilidade tornam-se requisitos
e características marcantes.
Numa
sociedade assim, a prosperidade pode vir, até mesmo, do lixo.
Marcelo
Freitas
Diretor da Corporate Gestão Empresarial e coordenador
do Movimento Escola Responsável, consultor nos segmentos
de educação e do terceiro setor, com ênfase
em programas de Responsabilidade Social e Voluntariado, Gestão
Estratégica, Recursos Humanos e Marketing. |