As
escolas particulares, geralmente empresas familiares cuja grande
maioria surgiu a partir da década de 1970, estão
passando por um processo de sucessão para a primeira ou
segunda geração. As que ainda não passaram
por isto devem estar pensando seriamente no assunto. Toda sucessão
em empresas, em particular de entidades educacionais, é
um processo longo, complexo e desgastante. Porém, caso
se queira perpetuar a instituição, é inevitável.
Quanto mais planejado e bem executado for, melhores as condições
de sobrevivência e desenvolvimento da escola.
Em
primeiro lugar, é preciso que fiquem claras, para os sucedidos,
a necessidade e as vantagens da sucessão. As escolas demandam
cada vez mais energia, criatividade e presença física
dos seus gestores. Já vimos pessoas com idades avançadas
cheias de energia e outras mais novas, porém exauridas,
sem conseguir oferecer o tônus necessário à
sobrevivência institucional em um mercado altamente competitivo.
É preciso que os sucedidos tenham bons planos para se ocuparem
após a sucessão e que se preparem financeiramente
para o novo período. Se isto for feito, estará dado
o primeiro passo para o sucesso do processo, Sucessão é
renovação, reorganização, re-tonificação,
revisão e melhoria das metodologias. Tudo isto visando
a aumentar a longevidade institucional. Nada disto compete com
a temida alteração nos princípios basais
que originaram a escola, medo freqüente nos processos de
sucessão.
A
escolha dos sucessores é outro passo que deve ser dado
com todo o cuidado possível. Os critérios de avaliação
da competência dos candidatos devem ser muito bem discutidos
e ficar claros no processo de seleção. Os herdeiros
são geralmente a primeira opção para a sucessão.
Já vimos casos em que isto foi feito com sucesso e outros
em que a administração dos filhos causou o fechamento
da escola. Caso não seja a melhor opção para
a continuidade na gestão da escola, a segunda geração
pode perfeitamente continuar na qualidade de sócio cotista,
avaliando o primeiro e segundo escalões da empresa, fixando
metas, cobrando resultados e tirando daí o seu sustento.
A perpetuidade institucional somente é garantida com uma
boa gestão, comprometida com os seguintes resultados: a)
reconhecida qualidade educacional; b) bons resultados econômico-financeiros;
c) integração da equipe educacional; d) investimentos
constantes e compatíveis com os resultados econômicos
de médio e longo prazo. É bom lembrar que os sucessores
deverão passar um bom tempo em gestão conjunta com
os sucedidos, até que sejam habilitados para exercer plenamente
suas funções.
A
reação e adesão da equipe interna da escola
ao processo de sucessão são de fundamental importância
para o seu sucesso. As pessoas devem ser envolvidas e perceber
que com os novos gestores algumas coisas poderão mudar,
sem se sentirem ameaçadas por isso. Cada sucessor, mesmo
respeitando os princípios e normas do processo sucessório,
terá sua forma de agir, e esta quase sempre é diferente
da dos antigos diretores. Isto precisa ser entendido e aceito
por todos. O fato de algumas coisas mudarem não significa
necessariamente que a escola mudou ou que o projeto educacional
foi desfigurado. Neste ponto, os objetivos educacionais precisam
ficar claros e consagrados, e a avaliação institucional
deve ter uma sistemática muito bem firmada para medir claramente
se a escola está na direção das metas para
o cumprimento destes objetivos.
A
reação da clientela também é de fundamental
importância para este processo. Assim, ela deve ser preparada
para isto. Os pais e alunos devem perceber que as mudanças
poderão ocorrer, porém serão paulatinas,
seguras e sempre no sentido de atualizar e melhorar a escola.
A comunidade precisa sentir que os canais de comunicação
estão claros e abertos. Poder exprimir suas dúvidas
ou temores é uma necessidade dos pais e alunos, e a escola
deve aproveitar este momento para garantir a todos que o processo
de sucessão veio para ajudar, solucionar antigos problemas
e dar mais vida à escola.
Outra
providência que ajuda a garantir o sucesso na transmissão
de funções é a existência de um Conselho
Deliberativo, hierarquicamente superior aos diretores da escola.
Este Conselho, geralmente formado pelos sócios da instituição,
pode contar também com conselheiros convidados (internos
e/ou externos à escola), pessoas com formação
e experiência comprovada para ajudar na alta gestão,
no cumprimento das metas educacionais e econômicas, no planejamento
estratégico e nas eventuais questões advindas do
próprio processo sucessório. O processo sucessório
em uma instituição educacional traz consigo uma
carga emocional bem maior do que em outros setores da economia.
As famílias envolvidas na sucessão, os professores
e funcionários e os alunos e pais, que permanecerão
na escola por vários anos. Tudo isto potencializa o grau
de emotividade e desgaste em qualquer tipo de alteração
metodológica, quanto mais em um processo sucessório.
Um Conselho Deliberativo bem constituído pode ser peça
fundamental para profissionalizar os processos de gestão,
evitando os desgastes e discussões infrutíferas
entre sucessores e sucedidos.
Em
resumo: a complexidade da sucessão está na preparação
dos sucedidos, na escolha e preparação dos sucessores,
na organização e registro dos processos operacionais
e no sistema de acompanhamento e avaliação da instituição.
As dificuldades são enormes, o processo é longo
e desgastante. O que faz tudo isto valer a pena é ver a
escola (criação dos sócios originais) crescer
como um filho: passando pela adolescência até a fase
adulta, ganhando sua independência para poder gerar novos
descendentes.
Fernando
Barão - Sócio-consultor da Corus Consultores