No
chamado mundo moderno, a preocupação com a qualidade
dos serviços, seja em que área for, levantou a necessidade
de descentralizar o poder de decisão, de chamar à
participação, pessoas envolvidas nos processos e
produtos das organizações, de promover rupturas
com velhas verdades e de sensibilizar o olhar para o novo.
Com
relação à escola, constatamos, mesmo antes
do moderno, a sempre preocupação com a melhoria
de qualidade da Educação, mais enfaticamente nos
últimos tempos. Conhecimentos, metodologias, tecnologias,
novas descobertas sobre o processo ensino-aprendizagem, modelos
de gestão, capacitação de professores, ênfase
em lideranças eficazes (coordenadores, diretores, professores,...),
trabalho em grupo, diversidade de literatura e revistas especializadas,
tudo isso está colocado como recurso para o aumento da
qualidade da Educação. Porém, por onde começar?
Em que se basear diante do conceito de qualidade, cujo valor é
conhecido e querido por todos, porém, complexo e difícil
de ser definido? O que escolher para que se realize, na prática,
esse desejo? Na posição de gestores educacionais,
creio haver uma responsabilidade que é desafiada a cada
instante, mergulhados nos problemas do dia-a-dia que se adentram
em suas salas, muitas vezes sem pedir licença. Re-significar
a instituição escolar diante da inflação
de informações na qual vivemos, com deflação
de sentido cada vez mais crescente, parafraseando Baudrillard*,
talvez seja o grande desafio dos gestores.
As
estratégias de gestão são inúmeras,
mas me parece que aquela que fortalece a escola como um todo refere-se
à articulação dinâmica do Projeto Político
Pedagógico. Entendido aqui mais pelo que não deva
ser: aquele que nunca saiu do papel, aquele que não foi
feito na e pela escola, aquele elaborado por uma única
pessoa, sem a necessária produção coletiva,
aquele recheado de conceitos de teóricos da Educação,
isento de autoria dos humanos que habitam a escola, ou aquele
que mora na prateleira da sala da diretoria, nunca pesquisado
pelos professores, coordenadores e pessoal administrativo, ou
pior ainda, aquele envelhecido pelo pó dos anos, o Projeto
Político Pedagógico (sua construção
ou reconstrução) serve ao gestor como conceito e
prática nucleares da instituição que dirige.
Esse documento ou carta de intenções, como é
chamado, quando elaborado com a participação de
todos que constituem a escola, já, no próprio tempo
de sua construção ou atualização,
oportuniza ao gestor o conhecimento dos sonhos, desejos, concepções,
identidade e singularidades da instituição, clareia
as expectativas dos alunos, da equipe pedagógica, do corpo
docente, das famílias sobre o que se quer para a escola.
Dessa forma, concomitantemente e/ou posteriormente, poderá
montar o seu modelo de gestão amparado no real, suportado
pelo modelo educativo contido no Projeto. Acredito que assim,
a escola estará mais próxima de uma unidade e de
uma gestão compartilhada, já que contou com a participação
dos profissionais que fazem Educação naquele lugar.
Nesse sentido, um aspecto relevante do Projeto Político
Pedagógico refere-se a sua função produtora
de conhecimento: a escola se olha, se refaz, recria-se, fica mais
comprometida com seus objetivos. Produz conhecimento sobre si
mesma. O gestor pode, então, exercer a sua função
mediadora para que a equipe pedagógica e outras equipes
de trabalho atuem em consonância com o que produziu.
Os
vetores da gestão escolar, portanto, não estão
fora da escola, impositivos, autoritários.
Estão
logo ali, dentro da instituição, com maior probabilidade
de fazerem sentido. Afinal não é o que mais se fala
em Educação?
Portanto,
convido os gestores a olharem com carinho o Projeto Político
Pedagógico da sua escola. Será que ele está
naquela prateleira?
*Baudrillard, Jean. A sociedade do consumo. Lisboa, Edições
70, 1976.
Márcia Zenker –
Consultora Sênior da Humus Consultoria na área de desenvolvimento
de projetos, desenvolvimento de gestores educacionais e capacitação
de docentes, Psicóloga pela USP - Universidade São
Paulo – Ribeirão Preto, Psicóloga Educacional
pelo Sedes Sapientiae e Co-autora do livro: “Gestão
Educacional – Uma Nova Visão”.