Recentemente
Hamel e Prahalad escreveram um artigo, publicado no site da HSM
Management, no qual tratam da necessidade de se pensar o amanhã,
desde já, como forma de se manter a liderança de
mercado e, em muitos casos, a sobrevivência das organizações.
Propõem no artigo, entre outras coisas, o que denominaram
de “Invenção do Amanhã”, que
seria em linhas gerais uma ação de transformação,
impulsionada pelos próprios executivos do mercado. A proposta
traz uma aparente quebra de paradigma nos preceitos da estratégia
que pregam a necessidade de entender o futuro para adaptar os
negócios em função das tendências identificadas
ou mapeadas, mas, no fundo, é uma proposta ousada de agir
sobre o futuro e não aguardar suas conseqüências.
Esse
artigo provoca algumas reflexões interessantes, primeiro,
sobre quais empresas estariam preparadas para influenciar efetivamente
o futuro do mercado e, segundo, quais seriam as instituições
capazes de fazer as análises para entender de maneira clara
essas tendências para o futuro, considerando a rapidez das
mudanças globais e as intervenções da concorrência
e dos governos. Outro fator chave fundamental seria a preparação
destas empresas para este novo cenário, em todos os seus
aspectos, em especial quanto aos recursos humanos. Caberia às
próprias empresas fazer isso? Como elas influenciaram hoje
as instituições de ensino para formarem os profissionais
que necessitarão no futuro?
Neste
cenário de mudanças, influenciadas ou não
pelas organizações, mais uma vez é possível
se discutir o papel das instituições de ensino.
Estamos vivendo a era da inovação e do empreendedorismo
no meio acadêmico, pelo menos no ponto de vista da pesquisa,
mas o que de fato é praticado pelas instituições
de ensino, em seus processos de gestão? Que ações
inovadoras e empreendedoras estão sendo tomadas ou realizadas
dentro dos campi universitários e escolas deste país?
Aparentemente,
como acontece com outros temas como administração,
estratégia, gestão focada em resultados, por exemplo,
as escolas ensinam, mas não praticam. A dúvida é
saber se isso ocorre por não acreditarem no que é
ensinado ou por acharem que tudo o que produzem e repassam para
os alunos só serve para as outras organizações.
Quando consideramos o tema inovação, a situação
fica ainda mais complexa. Afinal, inovação não
é uma escola ou modelo de gestão, e, sim, uma prática,
que existe ou não, na essência da organização.
Fica difícil, então, defender um debate sobre empreendedorismo
e/ou inovação em uma escola absolutamente tradicional
e conservadora, com cursos ultrapassados – que atendem a
demandas do passado, e profissionais burocráticos e desmotivados.
Algumas
organizações como a Philips, por exemplo, adotaram
o modelo do “simples” como melhor maneira de inovar
e influenciar a transformação do mercado. Este modelo
prega que às vezes o mais básico e simples é
a melhor forma de se satisfazer os clientes e solucionar os problemas,
principalmente em um mundo tão cheio de botões,
manuais, formulários, esquemas, cronogramas e processos.
Muitos autores também têm defendido o “simples”
como forma inovadora de tornar a organização mais
competitiva e mais focada no que realmente interessa ao mercado.
O
grande desafio para as instituições de ensino é,
então, conseguir tornar sua estrutura e processos menos
burocráticos e mais simples e desenvolver produtos inovadores,
pensando o futuro do mercado, de preferência em conjunto
com as organizações capazes de ter alguma influência
no amanhã. Para isso precisam não só formar
os profissionais para este mercado, mas, antes disso, manter (e
trazer) novos talentos – em todos os postos, acadêmicos,
técnicos e administrativos, dentro de suas próprias
estruturas.
Manter
os talentos que vão garantir que a instituição
de ensino será competitiva nos próximos dez anos
é uma ação fundamental e deve se iniciar
com a análise da adequação dos profissionais
às funções que estão exercendo, a
avaliação e mapeamento das competências necessárias
para cada cargo e perfil profissional e continuar com um efetivo
programa de desenvolvimento dos colaboradores, além, obviamente,
de uma equiparação de salários e benefícios
com o que é praticado pelo mercado.
Segundo
Tachizawa e Andrade, para o desenvolvimento de recursos humanos
em uma instituição de ensino deve-se ter como objetivo
aperfeiçoar o desempenho e não simplesmente fornecer
habilidades e conhecimentos e programas de treinamento só
devem ser criados a partir de necessidades de melhoria identificadas
pela organização. Essas afirmações
parecem óbvias, mas são fundamentais, principalmente
em uma área que somente na última década
começou a incorporar algumas das teorias administrativas,
principalmente quando observamos que elas não são
efetivamente praticadas nem por muitas das organizações
empresariais ditas mais modernas.
É
claro que somente bons programas de desenvolvimento não
garantem sozinhos a manutenção e captação
de talentos. É preciso mais, é preciso que a instituição
desenvolva também projetos de remuneração
variável e planos de carreira que estimulem a aplicação
do desenvolvimento na atualização dos conceitos,
métodos e na prática dos docentes, preferencialmente
olhando não só para a realidade atual, mas também
para as tendências sociais.
Infelizmente
não basta a implementação de todos esses
elementos e mais uma boa gestão de processos, marketing
e finanças para garantir a liderança e sobrevivência
de uma instituição de ensino. Como ensina o pensamento
estratégico, existem outros fatores que afetam os resultados,
como concorrência (que também pode estar implementando
tudo isto que foi apresentado e de maneira mais eficaz), novos
entrantes (instituições fortes que atuavam em outros
mercados e por algum motivo resolver ingressar no seu), produtos
substitutos (outra categoria de bens e serviços que acabam
por chamar a atenção de seus clientes mesmo não
sendo concorrentes diretos) e governo (que pode criar leis e impostos
que afetam os resultados da empresa – geralmente negativamente).
Então
qual seria o caminho para a sobrevivência neste mercado
altamente competitivo? Talvez a melhor resposta para esta pergunta
esteja no livro “Escolas que Aprendem”, escrito por
um grupo de professores coordenados por Peter Senge – professor
da escola de negócios do MIT e um dos maiores pensadores
da mudança organizacional. Este grupo defende que, para
sobreviver no mundo atual, uma organização de ensino
tem que aprender sempre e a melhor forma de avaliar se estão
conseguindo fazer isso é respondendo criticamente a algumas
questões:
• A organização tem um entendimento claro
e honesto de sua realidade atual?
• Este entendimento da realidade atual é compartilhado
por toda a organização, e a partir daí são
criados novos conhecimentos que também são compartilhados?
• O conhecimento é traduzido em ações
eficazes rumo ao seu futuro desejado?
Parece
simples, não? Voltamos então à questão
do entender a si mesmo, disseminar o conhecimento, influenciar
o futuro (desejado!). Inovação pode ser encarada
às vezes como a tentativa de se enxergar o óbvio:
organizações que ensinam, precisam aprender constantemente
e, mais, tornar esse “aprender”, ou conhecimento,
uma ferramenta a ser usada, aplicada e aprimorada. Só assim
poderão desenhar o amanhã, ou melhor, o seu amanhã.
Gilberto
Alves - Responsável pelo Marketing do Centro de
Tecnologia e Gestão Educacional do Senac Rio, professor do
MBA on-line da FGV e de graduação e pós-graduação
da Universidade Virtual Brasileira e da Universidade Veiga de Almeida
(onde também foi Diretor), possui mais de quinze anos de
experiência como executivo em empresas diversas como: Skol,
APSA e Grupo Internet World, Publicitário, Mestre em Administração
(IBMEC) e Pós-graduado em Gestão de RH, Marketing
(ESPM) e Gestão de Tecnologia e Negócios (MBA da UFRJ).
Neste momento está lançando dois livros, o primeiro
sobre Gestão de Serviços pela editora Atlas (junto
com outros seis professores da FGV / UVA) e o segundo sobre Educação
Corporativa pela Editora Senac Rio.
Bibliografia:
PRAHALAD,
C. K., HAMEL, Gary. Como Criar o Futuro Já: para manter
a liderança de mercado, é preciso pensar no amanhã
hoje. Disponível em: http://www.hsm.com.br/canais/circuitos/estrategia_mkt2007/passo4-pg1.php?.
Consultado em 04/03/2008 às 19h30min.
PORTER,
Michael E. Estratégia Competitiva: Técnicas para
análise de indústrias e da concorrência. Trad.
Elizabeth Maria de Pinho Braga. 7a edição. Rio de
Janeiro. Campus, 1986.
SENGE, Peter, et al. Escolas que aprendem: um guia da Quinta Disciplina
para educadores, pais e todos que se interessam pela educação.
Trad. Ronaldo Cataldo Costa. Porto Alegre: Artmed, 2005.
TACHIZAWA,
Takeshy., ANDRADE, Rui Otávio B. Gestão de Instituições
de Ensino. 2a edição. Rio de Janeiro: Editora FGV,
2001