CONSULTORIA

Gestão Educacional: Mudanças e Desafios
Renato Casagrande

Todos sabemos que não há mais como a instituição de ensino se manter restrita aos contornos tradicionais dos padrões de qualidade de ensino centrados principalmente nos processos pedagógicos que sempre lhe caracterizaram. Também não é mais possível pensar na qualidade da instituição de ensino apenas em função da excelência de suas características pedagógicas, embora estas sejam, na prática do dia a dia, aquilo que vai diferenciar uma instituição da outra numa visão mais holística.

Por outro lado, tem-se o modelo de formação do educador, construído em função dessa estrutura tradicional, voltada unicamente para a qualidade pedagógica, exigindo uma re-significação, uma reestruturação fundamentada nos paradigmas do novo contexto social de contínua mudança. Assim, a formação do gestor educacional, passa a requerer modificações consistentes que se harmonizem com as novas formas de gestão requeridas pelo mercado.

Em seu conjunto, tais mudanças têm exigido das instituições de ensino uma postura única na história da educação, pautada, sobretudo, no dinamismo para responder rapidamente aos desafios que se impõem e na agilidade em assumir novas funções e papéis a partir das diferentes necessidades que a sociedade passa a manifestar.

Os alunos, que aqui podemos chamar de clientes, buscam hoje não apenas a qualidade de ensino, mas, também, padrões de organização, excelência no atendimento, facilidade de acesso às informações e estímulo à participação da comunidade na definição e consecução dos objetivos pedagógicos. Para fazer frente às novas exigências da clientela, as instituições passaram a se reestruturar adotando três estratégias: desenvolvimento da capacidade local de planejamento, aperfeiçoamento dos dirigentes e modernização da gestão.

Destaca-se, então, o papel do gestor educacional, a quem cabe interpretar as novas expectativas, confrontá-las com a realidade educacional da instituição e, por fim, elaborar e implementar as respostas que a comunidade escolar deverá assumir a partir de então.

O trabalho do gestor deve apoiar-se em três tipos de habilidades essenciais: técnica, humana e conceitual. Ou seja, o profissional de gestão educacional deve deter conhecimentos técnicos que o habilitem a utilizar-se adequadamente de métodos e técnicas para solução de questões pedagógicas ou administrativas próprias da rotina da instituição, como as relacionadas à coordenação pedagógica ou aos setores administrativos. Deve, também, possuir habilidade humana para interagir com as pessoas, entendendo-as como seres únicos com características específicas e que reagem de forma particular frente a diversas situações e compreendendo suas atitudes e comportamentos. Por fim, a habilidade conceitual que se relaciona à habilidade do gestor educacional para trabalhar com os aspectos mais complexos da instituição e estabelecer o ajuste necessário para que os membros da comunidade educacional possam nela conviver e atuar de forma produtiva, satisfatória e motivadora. Cabe, portanto, a este profissional, a responsabilidade de criar estratégias eficazes que possibilitem à instituição o alcance de seus objetivos. Isso pode soar como lugar comum, uma vez que esta é uma atribuição inerente à função do gestor. Porém, o planejamento e a consecução dessas estratégias, bem como a conduta que o gestor deverá adotar com relação aos demais membros da comunidade escolar no intuito de motivá-los a assumir as mudanças necessárias exigem dele muito mais do que os conhecimentos pedagógicos e administrativos que fazem parte de sua formação normal.

Daí a necessidade de se abordar com maior ênfase aquilo que se convencionou chamar de “profissionalização” do gestor, ou seja, o reordenamento de sua capacidade gerencial em bases mais abrangentes, além da estritamente pedagógica, como o diagnóstico da instituição dentro e fora do âmbito educacional, que lhe irá permitir tomar medidas para modernizar os procedimentos administrativos, criar condições propícias para a auto-gestão, redefinir metas e objetivos condizentes com a nova realidade que se pretendem imprimir. Vale ressaltar: tudo isso tendo como pressuposto básico o seu contínuo aperfeiçoamento e o de seus colaboradores, em conformidade com os novos modelos gerenciais de ensino baseados na co-responsabilidade, autonomia e participação da comunidade educacional interna e externa.

No entanto, esta nova concepção de gestão, enfatiza a “profissionalização” ou, mais especificamente, a necessidade de aperfeiçoamento contínuo dos gestores sob a ótica da teoria administrativa, assumindo o compromisso de gerir a instituição a partir de ações que visem otimizar a aplicação de recursos, bem como a formação de equipes multifuncionais, avaliação da satisfação da clientela, análise do mercado e da concorrência, buscando, enfim, aplicar uma visão mercadológica, voltada a resultados, objetivo comum nas empresas tradicionais, mas pouco ou nunca aplicados à gestão de instituições de ensino.

Esta “re-qualificação” se impõe na medida em que os padrões de gestão requeridos devem satisfazer às novas demandas da gestão participativa e autônoma e a urgência de atingir este propósito se justifica frente à rapidez com que as mudanças sociais ocorrem no cenário atual.

O gestor educacional que não acompanhar a velocidade destas mudanças e não fornecer a tempo as respostas requeridas está sujeito a “perder o trem da história”, pois a escola contemporânea irá exigir de seus gestores a modernização dos processos administrativos, a reformulação de funções, o realinhamento das decisões e, o mais importante, a participação da comunidade educacional na decisão dos novos rumos a serem seguidos em direção ao futuro.

Renato Casagrande - Consultor, conferencista, pesquisador e autor de livro e artigos publicados no Brasil e no exterior sobre gestão educacional. Mestre em administração pela Fundação Getúlio Vargas; especialização em Liderança Educacional pela PennState University.

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