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Tratando
da educação de adultos, em tempos de educação
continuada, exigências de alto nível de formação
e de aprender a aprender, gostaria de propor uma ligeira reflexão
quanto ao tratamento que nós, profissionais da área,
damos à questão da aprendizagem enquanto ponto focal
de nossas ações. Será que estamos desenvolvendo
materiais, ambientes e relacionamentos que estimulam a aprendizagem?
Ou será que continuamos, apesar de nossos sinceros esforços,
a reproduzir uma cultura cuja autoridade de quem ensina prevalece?
Em parte, já conhecemos as respostas e justamente por isso
é importante e necessário insistir na reflexão
e no esforço de aperfeiçoar nossas práticas.
Como
objeto para inferência dessas questões, escolho o
ofício do design instrucional aplicado à educação
a distância, atividade que absorve grande parte do meu tempo
e das pessoas com as quais trabalho atualmente. Além da
comodidade de falar sobre algo que faz parte do nosso dia-a-dia,
tratar do design instrucional é interessante, pois esta
é uma atividade nova e que surge em um momento onde o papel
de quem ensina é fortemente discutido e reformatado. O
designer instrucional é aquele personagem que vem ocupar
o lugar de modelador de conteúdos didáticos para
diversas mídias e acaba delimitando a função
do mestre (professor) a função de especialista/conteudista.
Materiais
didáticos, resultantes do trabalho de design instrucional,
são importantes facilitadores no estudo de quem se dispõe
a adquirir novo conhecimento. É claro que se pode aprender
por variados caminhos, através de inúmeros meios,
estímulos e tipos de conteúdo (não só
didático). Porém, se é possível contar
com um conteúdo que conduza o empreendimento da aprendizagem,
o conteúdo didático pode ser ainda mais efetivamente
focado. Pois a maioria dos materiais disponíveis mais fornecem
informações “mastigadas” do que orientam.
Mas, afinal, ensinar não é isso, orientar? Ou será
que ainda se ensina como se fosse possível transmitir o
“verdadeiro conhecimento” do mestre?
Da
Andragogia à Heutagogia
É nesse momento que teorias e conceitos nos servem para
nos aprofundarmos a respeito, antes de partimos para ação
pensando que estamos inovando quando, na verdade, reproduzimos
os valores que nós mesmos combatemos. É conveniente,
por tanto, trazer à baila dois conceitos que ultimamente
nos têm feito repensar nossa prática. São
eles: Andragogia e Heutagogia.
Já
conhecida há algum tempo, a Andragogia, forjada por Malcom
Knowles, nos ajuda a delimitar os estudos sobre a aprendizagem
de adultos divorciando-se da pedagogia que tem como fundamento
o estudo sobre a educação infantil. Adultos, diferentemente
das crianças, aprendem mais quando são “auto-dirigidos”.
O
e-learning, sofreu forte influência dessa teoria,
já que a possibilidade de estudar sem a presença
intensiva do professor, o que depende da autonomia de quem aprende,
tornou-se uma realidade. Porém, no caso do e-learning formal,
a aprendizagem auto-dirigida virou mais exceção
que regra. A autoridade do ensinante ficou ainda mais forte, o
que pode ser percebido nos conteúdos, que instruem o que
é certo e errado. Excluindo os casos de conteúdos
referentes a procedimentos, em que assimilar o que é certo
é fundamental, existe realmente uma série de temas
que mereciam uma maior abertura, além do correto-incorreto,
para justamente oportunizar seu aprofundamento.
De
fato, o conteúdo não é o conhecimento, resultado
do processo de aprendizagem. Ele é acessório, é
estímulo ao aprender. Portanto, conteúdos didáticos
devem ser mais desafiadores, enriquecidos com oportunidades para
quem estuda possa aprender. É preciso ir além da
retenção de conteúdo. É importante
maximizar a adaptação e o uso bem-sucedido do conhecimento.
Foi
nessa direção que Stewart Hase desenvolveu, neste
início de século XXI, o conceito da Heutagogia,
no sentido de ser mais um refinamento que um substituto da Andragogia.
Para desenvolver o conceito, Hase apontou como foco central a
aprendizagem auto-dirigida (ou auto-determinada), já levantada
por Knowles como característica da aprendizagem de adultos.
Em tempos de grande acesso à informação,
como jamais experimentado em nossa história, a Heutagogia
não trata diretamente da relação ensino-aprendizagem
para justamente levar mais a fundo a discussão quanto à
aprendizagem. Por tanto, a questão está no desenvolvimento
individual. Como aprender a aprender? A proposta é que
conteúdos e modelos de oferta sejam pensados (desenhados)
visando a habilidade de aprender o processo de adquirir conhecimento.
É
tudo estímulo, pois aprender é inerente ao indivíduo
e é um processo que ocorre dentro e fora dele, simultaneamente
(double loop learning ), ou seja, o conhecimento não
é apenas internalizado, mas transforma ações..
Todas as experiências, formais e informais, são válidas.
A aprendizagem não é um processo linear, mas sim
randômico, caótico. O desafio é maximizar
isso.
Neste
enfoque, ensinar é prover os recursos, mas é aquele
que aprende quem estrutura o curso. Aprendentes podem acessar
leituras e questões em outras fontes; determinar o que
é interessante e o que é relevante para eles; e
negociar tarefas de estudo e avaliação. Orientar
(ou, se ainda preferir, ensinar) significa pensar mais no processo
que no conteúdo; buscar sentido no mundo de quem aprende
e não no de quem ensina; ir além das teorias favoritas;
etc.
Colocando
em prática
Mas como colocar isso em prática, pelo menos quando se
fala em design instrucional? A única resposta que pessoalmente
conheço até agora é: fazendo um esforço
constante em privilegiar quem aprende, submetendo o ensino à
função de auxiliar do processo. Lembrando que quando
afirmo isso, estou pensando em conteúdos. A questão
da oferta não está, pelo momento, colocada aqui.
De
resto, aponto algumas novas questões para deixar o debate
em aberto. Primeiro, quanto à maturidade desse “
aluno-adulto”, realidade ou exceção? Segundo,
como lidar com os conteudistas que são “autoridades”
em suas áreas, fazendo com que assumam uma postura imparcial
no sentido de não conduzir as conclusões do aprendente?
E terceiro, como desenhar um conteúdo menos “mastigado”
e mais comprometido em facilitar o percurso de quem aprende?
Para
estas questões a Heutagogia serve muito mais como uma proposta
à reflexão. A prática é uma constante
batalha para quebrar paradigmas além de uma adaptação
necessária a uma nova cultura emergente que já vem
revolucionando fundamentalmente a educação.
Carolina
Rodrigues Paz - Diretora da Aprender Consultoria e Design
Ltda. atualmente desenvolve, através de sua empresa, conteúdos
didáticos digitais e presta serviços de consultoria
para empresas-clientes como FGV-EAESP, Sky, IBMEC-São Paulo
e HSBC.
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