CONSULTORIA

Como Focar quem Aprende?
Carolina Rodrigues Paz

Tratando da educação de adultos, em tempos de educação continuada, exigências de alto nível de formação e de aprender a aprender, gostaria de propor uma ligeira reflexão quanto ao tratamento que nós, profissionais da área, damos à questão da aprendizagem enquanto ponto focal de nossas ações. Será que estamos desenvolvendo materiais, ambientes e relacionamentos que estimulam a aprendizagem? Ou será que continuamos, apesar de nossos sinceros esforços, a reproduzir uma cultura cuja autoridade de quem ensina prevalece? Em parte, já conhecemos as respostas e justamente por isso é importante e necessário insistir na reflexão e no esforço de aperfeiçoar nossas práticas.

Como objeto para inferência dessas questões, escolho o ofício do design instrucional aplicado à educação a distância, atividade que absorve grande parte do meu tempo e das pessoas com as quais trabalho atualmente. Além da comodidade de falar sobre algo que faz parte do nosso dia-a-dia, tratar do design instrucional é interessante, pois esta é uma atividade nova e que surge em um momento onde o papel de quem ensina é fortemente discutido e reformatado. O designer instrucional é aquele personagem que vem ocupar o lugar de modelador de conteúdos didáticos para diversas mídias e acaba delimitando a função do mestre (professor) a função de especialista/conteudista.

Materiais didáticos, resultantes do trabalho de design instrucional, são importantes facilitadores no estudo de quem se dispõe a adquirir novo conhecimento. É claro que se pode aprender por variados caminhos, através de inúmeros meios, estímulos e tipos de conteúdo (não só didático). Porém, se é possível contar com um conteúdo que conduza o empreendimento da aprendizagem, o conteúdo didático pode ser ainda mais efetivamente focado. Pois a maioria dos materiais disponíveis mais fornecem informações “mastigadas” do que orientam. Mas, afinal, ensinar não é isso, orientar? Ou será que ainda se ensina como se fosse possível transmitir o “verdadeiro conhecimento” do mestre?

Da Andragogia à Heutagogia
É nesse momento que teorias e conceitos nos servem para nos aprofundarmos a respeito, antes de partimos para ação pensando que estamos inovando quando, na verdade, reproduzimos os valores que nós mesmos combatemos. É conveniente, por tanto, trazer à baila dois conceitos que ultimamente nos têm feito repensar nossa prática. São eles: Andragogia e Heutagogia.

Já conhecida há algum tempo, a Andragogia, forjada por Malcom Knowles, nos ajuda a delimitar os estudos sobre a aprendizagem de adultos divorciando-se da pedagogia que tem como fundamento o estudo sobre a educação infantil. Adultos, diferentemente das crianças, aprendem mais quando são “auto-dirigidos”.

O e-learning, sofreu forte influência dessa teoria, já que a possibilidade de estudar sem a presença intensiva do professor, o que depende da autonomia de quem aprende, tornou-se uma realidade. Porém, no caso do e-learning formal, a aprendizagem auto-dirigida virou mais exceção que regra. A autoridade do ensinante ficou ainda mais forte, o que pode ser percebido nos conteúdos, que instruem o que é certo e errado. Excluindo os casos de conteúdos referentes a procedimentos, em que assimilar o que é certo é fundamental, existe realmente uma série de temas que mereciam uma maior abertura, além do correto-incorreto, para justamente oportunizar seu aprofundamento.

De fato, o conteúdo não é o conhecimento, resultado do processo de aprendizagem. Ele é acessório, é estímulo ao aprender. Portanto, conteúdos didáticos devem ser mais desafiadores, enriquecidos com oportunidades para quem estuda possa aprender. É preciso ir além da retenção de conteúdo. É importante maximizar a adaptação e o uso bem-sucedido do conhecimento.

Foi nessa direção que Stewart Hase desenvolveu, neste início de século XXI, o conceito da Heutagogia, no sentido de ser mais um refinamento que um substituto da Andragogia. Para desenvolver o conceito, Hase apontou como foco central a aprendizagem auto-dirigida (ou auto-determinada), já levantada por Knowles como característica da aprendizagem de adultos.
Em tempos de grande acesso à informação, como jamais experimentado em nossa história, a Heutagogia não trata diretamente da relação ensino-aprendizagem para justamente levar mais a fundo a discussão quanto à aprendizagem. Por tanto, a questão está no desenvolvimento individual. Como aprender a aprender? A proposta é que conteúdos e modelos de oferta sejam pensados (desenhados) visando a habilidade de aprender o processo de adquirir conhecimento.

É tudo estímulo, pois aprender é inerente ao indivíduo e é um processo que ocorre dentro e fora dele, simultaneamente (double loop learning ), ou seja, o conhecimento não é apenas internalizado, mas transforma ações.. Todas as experiências, formais e informais, são válidas. A aprendizagem não é um processo linear, mas sim randômico, caótico. O desafio é maximizar isso.

Neste enfoque, ensinar é prover os recursos, mas é aquele que aprende quem estrutura o curso. Aprendentes podem acessar leituras e questões em outras fontes; determinar o que é interessante e o que é relevante para eles; e negociar tarefas de estudo e avaliação. Orientar (ou, se ainda preferir, ensinar) significa pensar mais no processo que no conteúdo; buscar sentido no mundo de quem aprende e não no de quem ensina; ir além das teorias favoritas; etc.

Colocando em prática
Mas como colocar isso em prática, pelo menos quando se fala em design instrucional? A única resposta que pessoalmente conheço até agora é: fazendo um esforço constante em privilegiar quem aprende, submetendo o ensino à função de auxiliar do processo. Lembrando que quando afirmo isso, estou pensando em conteúdos. A questão da oferta não está, pelo momento, colocada aqui.

De resto, aponto algumas novas questões para deixar o debate em aberto. Primeiro, quanto à maturidade desse “ aluno-adulto”, realidade ou exceção? Segundo, como lidar com os conteudistas que são “autoridades” em suas áreas, fazendo com que assumam uma postura imparcial no sentido de não conduzir as conclusões do aprendente? E terceiro, como desenhar um conteúdo menos “mastigado” e mais comprometido em facilitar o percurso de quem aprende?

Para estas questões a Heutagogia serve muito mais como uma proposta à reflexão. A prática é uma constante batalha para quebrar paradigmas além de uma adaptação necessária a uma nova cultura emergente que já vem revolucionando fundamentalmente a educação.

Carolina Rodrigues Paz - Diretora da Aprender Consultoria e Design Ltda. atualmente desenvolve, através de sua empresa, conteúdos didáticos digitais e presta serviços de consultoria para empresas-clientes como FGV-EAESP, Sky, IBMEC-São Paulo e HSBC.

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