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| Mílada
Tonarelli Gonçalves |
Engana-se
quem imagina que vai começar a ler sobre os prós
e contras do uso das novas tecnologias de comunicação
na escola. São muitos os textos que tratam desse assunto.
No entanto, os desafios dos educadores não se referem apenas
ao uso dos meios tecnológicos. Dizem respeito também
à comunicação, essa maravilhosa capacidade
do ser humano de elaborar e expressar seus pensamentos e sentimentos
por meio de sons, palavras, desenhos, gestos e muitas outras formas.
Quem
já parou para pensar no tipo de comunicação
que experimenta na escola ou em casa? Ou no processo de comunicação
que define nossa relação com a televisão,
o jornal, o rádio?
A
visão mais conhecida acerca do que vem a ser “comunicação”
é aquela que diz respeito a um proceso que envolve um emissor
e um receptor (ou vários receptores). O primeiro envia
uma mensagem para o segundo, por meio de um canal, numa via de
mão única. Isto é, a mensagem não
retorna do receptor para o emissor. Para facilitar nosso entendimento,
propomos a comparação deste modelo à imagem
de uma estrela, ou seja, um centro emissor para muitos pontos
difusos.
Com
isso, do ponto de vista comunicacional, pode-se dizer que a escola
surgiu baseada de um modelo de comunicação similar
a este que ilustramos com a imagem de uma estrela: o professor
desempenhando o papel de emissor da mensagem, e o aluno, o de
receptor, com pouca ou nenhuma negociação de sentido
e a aprendizagem individual.²
Conforme
disse o filósofo francês Michel Serres – em
entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura (Roda Viva: Michel
Serres 1999) -, “as novas tecnologias não trazem
novos desafios à Educação”. Os desafios
que a escola de hoje enfrenta, segundo ele, são antigos
e independem das tecnologias.
Por isso mesmo, pode-se considerar que um dos grandes desafios
da escola, mais do que utilizar os recursos tecnológicos,
é derrubar o modelo da comunicação em estrela.
Esforços neste sentido já foram observados no final
do século 19, quando alguns educadores começaram
a usar métodos e concepções baseados na interação
e negociação de sentido, independentemente das tecnologias
de que dispunham.
A
exemplo disso, no início do século 20 o educador
francês Celestièn Freinet (1976) defendia que a escola
deveria considerar o contexto sociocultural do qual a criança
fazia parte. Em suas metodologias, as crianças aprendiam
a “técnica de impressão”, por meio da
qual os textos elaborados por elas mesmas eram reproduzidos. Nas
atividades, em que prevalecia o espírito cooperativo, os
trabalhos eram apresentados, discutidos e posteriormente impressos,
com o objetivo de criar um “diário de classe”
e um “jornal escolar”.
Posturas
educativas como essa, de Freinet, envolvem outro modelo comunicacional,
baseado na troca e na negociação de sentido entre
os envolvidos no processo da comunicação. Para este
paradigma, fazemos alusão à imagem de rede, constituída
por muitos pontos interligados que atuam, ao mesmo tempo, como
emissores e receptores de mensagens.
As
invenções tecnológicas do século 19
e 20 criaram um cotidiano permeado de novas linguagens e possibilidades
comunicacionais. Vimos o surgimento do computador pessoal (PC),
da conexão de vários computadores a um servidor³
e da rede mundial de computadores, a Internet, que, desde a década
de 1990, com a popularização da World Wide Web (WWW),
vem ganhando grande espaço em nossas vidas.
O
mundo de hoje requer do jovem (e de todos nós) a capacidade
de se comunicar com um número cada vez maior de pessoas,
de lidar com um volume de informação cada vez maior
e mais rapidamente. O crescente acesso aos meios tecnológicos
também possibilita que a produção e a emissão
da comunicação seja realizada por mais atores. Vemos
o crescimento de canais de TV, da produção de vídeos,
das rádios educativas, de jornais locais... Porém,
com a facilidade de publicação possibilitada pela
Internet, temos um aumento extraordinário na diversificação
dos pontos emissores de mensagens.
Nesse sentido, a Internet tem se mostrado um meio propício
para a efetivação do modelo de comunicação
em rede, uma vez que o educador pode:
1) utilizar o computador conectado à Rede como recurso
para seu desenvolvimento pessoal, ao buscar sua própria
formação continuada e conteúdos de seu interesse;
2) integrar comunidades virtuais de troca e de aprendizagem, partilhando
informações com outros educadores;
3) construir atividades para seus alunos a partir de ferramentas
disponíveis, hipertextos, e da seleção, recorte,
organização e edição de informações
coletadas na rede;
4) publicar as suas produções e de seus alunos,
disponibilizando-as, gratuitamente, a qualquer pessoa que tenha
acesso à Rede, em qualquer parte do mundo.
5) avaliar o desenvolvimento do aluno, acompanhando o processo
de construção do conhecimento, por meio de roteiros
orientados pelo professor ou definidos pelo aluno;
Por
fim, outro aspecto que a escola não pode ignorar é
o interesse que os alunos têm em explorar o ciberespaço.
Para a escola, que há tanto tempo reclama da falta de interesse
dos alunos, está aí uma oportunidade de reverter
esse quadro: o educador que conseguir encarar a Internet como
sua aliada, estará à frente daqueles que a encaram
como problema.
1.
Texto publicado originalmente no EducaRede www.educarede.org.br
2. Na educação, esse modelo de comunicação
corresponde ao que o educador Paulo Freire chamou de “educação
bancária”: “O educador faz ‘depósitos’
de conteúdos que devem ser arquivados pelos educandos.
Desta maneira a educação se torna um ato de depositar,
em que os educandos são os depositários e o educador
o depositante. O educador será tanto melhor educador quanto
mais conseguir “depositar” nos educandos. Os educandos,
por sua vez, serão tanto melhores educados, quanto mais
conseguirem arquivar os depósitos feitos”. FREIRE,
Paulo. Pedagogia do oprimido.12a edição, p. 66.
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.
3. Computador, geralmente com grande capacidade de processamento
e armazenamento, ligado permanentemente à Internet. Centraliza
funções como armazenamento de banco de dados, envio
de páginas da Web etc. Sites sempre são hospedados
em servidores.
Mílada
Tonarelli Gonçalves - psicóloga e Mestre
em Ciências da Comunicação pela USP, pesquisadora
do Cenpec; pesquisadora do LAPIC- Laboratório de Pesquisas
em Infância, Imaginário e Comunicação
da USP; colaboradora da Webuse na concepção e
produção de projetos de internet, aprendizagem
e usabilidade.
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