O
título desse artigo poderia perfeitamente ser “Pela
primeira vez o setor público tornou-se mais desejável
que o setor privado na busca de empregos”.
Essa
manchete poderia, também, ser seguida do subtítulo
“Sua Instituição de Ensino contempla essa
realidade e oferece um curso com vistas a esse mercado?”.
Ainda que a resposta seja, para a grande maioria das escolas
e faculdades, negativa, essa é uma questão nova
que precisa ser mais conhecida e debatida nos fóruns
da gestão educacional.
A
questão do Novo Eldorado dos empregos no funcionalismo
público (não existem precedentes para a recente
corrida atrás das vagas na administração
federal, estadual e municipal) foi o tema abordado pela matéria
principal da Revista Veja de julho desse ano, que estampou um
movimento do setor educacional, bastante claro para aqueles
que acompanham de perto a evolução e as mudanças
na base de clientes das Universidades e Faculdades Privadas
de nosso país: “Cinco Milhões querem o governo
como patrão” (!).
A
revista anunciava alguns dados entusiasmantes para os jovens
cujo sonho é entrar no mercado de trabalho, já
na introdução da reportagem: “Só
nesse ano 100.000 novos cargos serão disputados em concursos
que atraem milhões em busca de bons salários,
estabilidade (estima-se que menos de 1% dos funcionários
públicos percam o emprego todos os anos), ascensão
na carreira e prestígio profissional”.
Por
um lado a informação (politicamente questionável)
já vinha processada e debatida no lead do texto: “A
proporção de funcionários públicos
entre os trabalhadores com carteira assinada no Brasil passou
de 17%, na década de 80, para 22%, hoje (mais de 9 milhões
de brasileiros). É uma proporção maior
do que a do Chile, da Argentina, dos Estados Unidos, da Inglaterra”.
Parte desse movimento – a revista explicou – dá-se
pela lei das burocracias, segundo a qual, deixadas à
própria sorte, elas crescem de tamanho e ampliam indefinidamente
seus privilégios. Outra parte – segundo a Veja
– dá-se pelo gigantismo do estado brasileiro, que
obriga os cidadãos a cinco meses só para custear
as despesas do governo (pagando impostos).
Se
o caminho é inflar o setor público, por meio da
criação de novas, novas, e novas vagas (afinal
o governo gasta 48% da verba disponível com a folha de
pagamento) em detrimento de investir no setor privado e criar
condições reais de crescimento econômico
e geração de empregos (num cenário prospero
onde 100 mil vagas seriam o menor reflexo do desenvolvimento
econômico e social), não cabe a esse artigo responder.
Mais
que uma questão política, no entanto esse fenômeno
reflete em um mundo de ameaças (reais) e oportunidades
(concretas) ao gestor de uma Instituição Educacional
Privada, principalmente nos níveis Médio e Superior
de ensino.
Afinal
esses alunos preparam-se para o Concurso Público em “Cursinhos”.
Voltando aos fundamentos da teoria de Concorrência de
Porter, esses “Cursinhos” seriam novos entrantes
do setor educacional, que absorvem parte substancial da demanda
por Ensino Superior e que por vezes não são devidamente
computados nos planejamentos das IES. Competem com o nível
superior, por uma lado, e são o caminho trilhado por
muitos estudantes saídos do 3 ano do Ensino Médio,
por outro. A tabua de salvação para a qual muitos
Pré Vestibulares deveriam nadar.
Esse
fenômeno começa a aparecer em algumas pesquisas
pontuais de instituições de todo o pais. Essas
pesquisas vêm apontando algumas tendências de consumo
educacional, de necessidades e expectativas de uma parcela do
mercado consumidor cada vez mais relevante. Duas tendências
merecem destaque:
a)
Em algumas praças os Cursinhos para Concursos Públicos
vêm absorvendo a demanda por ensino superior.
A
maioria dos estudantes de Ensino Médio não está
devidamente esclarecida em relação aos benefícios
de uma boa formação de nível superior.
Acreditam que uma boa formação seja aquela em
competências técnicas para o mundo do trabalho,
e que uma boa faculdade seja aquela que forme (e cada vez mais
“encaminhe”, também) para bons empregos e
para o mercado. Uma visão bastante limitada da formação
universitária, mas construída por anos da comunicação
deturpada de faculdades que reduzem, na mídia, seu serviço
aos resultados de curto prazo na vida profissional, apenas.
Nesses
casos, para aqueles alunos do Ensino Médio cuja motivação
principal seja “conseguir um emprego” a formação
no 2 Grau basta para atuar em diversas vagas da administração
publica. E as pesquisas apontam que para muitos conseguir passar
em um concurso, tornou-se uma nova fase antes de cursar a faculdade.
Se
antes o caminho era trilhado por:
Ensino Médio > Ensino Superior > Mercado de Trabalho
No novo paradigma de muitos alunos essa realidade agora migrou
para o modelo:
Ensino
Médio > Concurso Público (algumas vezes perseguido
por anos) > Ensino Superior > Concurso Publico para uma
vaga melhor.
Essa
é uma tendência, posto que concursos internos permitem
que os funcionários “concurseiros” pleiteiem
cargos melhores – progredindo ao longo de sua carreira
(efeito quase inexistente até poucos anos), enchendo
as salas de aula dos cursinhos preparatórios.
Cabe
uma comparação: inscreveram-se no ensino superior
em 2005 (últimos dados oficiais do INEP) 4.7 milhões
de candidatos as vagas da graduação. Desses, 2.5
nas IES particulares.
Fonte:
Análise Setorial 2007 – Hoper Educacional.
De
outro lado 5.000.000 de brasileiros inscreveram-se, em 2006,
em 300 concursos promovidos no país para preencher vagas
em repartições federais, estaduais e municipais
(43% mais candidatos que no início da década).
Em 2007 os números de pessoas interessadas nos bons salários,
estabilidade e ascensão na carreira devem ser ainda mais
altos. Desse total apenas 500 mil (10%) se inscreveram nas escolas
preparatórias. Ainda assim esse setor triplicou de tamanho
nos últimos anos. Esse segmento do setor educacional
é um negocio milionário que envolve desde os cursos
até as Editoras especializadas e empresas orientadas
a organização e aplicação das provas
(a previsão é que apenas essas empresas faturem
R$ 500.000.000,00 até o final do ano com a taxa de inscrição
dos candidatos).
b)
Em algumas regiões os alunos cursam uma faculdade apenas
com o objetivo de participar de concursos públicos pra
vagas de melhor remuneração.
Os
níveis de empregos oferecidos pela máquina governamental
são diversos. Vão desde vagas para portadores
do diploma do Ensino Fundamental, apenas, até vagas para
graduados em todas as áreas. Por isso o perfil do candidato
é variado. Se muitos egressos do Ensino Médio
procuram atingir esse status antes de cursar uma faculdade (e
nesse caso o concurso publico torna-se um concorrente do curso
superior), por outro lado alguns estudantes universitários
vão para a aula apenas para ganhar o grau e poder concorrer
por melhores remunerações em vagas para profissionais
formados (os salários são em media 97% mais altos
que no setor privado e a media do ganho do funcionário
público passou na última década de R$1400,00
para R$ 4.700,00, contra R$ 2125,00 do Chile e R$ 8200,00 dos
EUA). Nesse caso o Concurso Público torna-se a raison
d'etre do ensino superior.
Nesse
nível o recém formado concorre com profissionais
experientes em busca de reconhecimento e crescimento na carreira.
Se no passado a faixa etária media dos alunos dos cursos
preparatórios para concurso tinha entre 40 e 60 anos,
hoje as salas de aula estão lotadas de jovens de 25 anos
(mais da metade recém saídos da faculdade). Talvez
isso explique a baixa procura por muitos programas de Pós
Graduação. Uma ameaça e uma oportunidade
para a Instituição de Ensino que estiver disposta
a diversificar sua “cesta de produtos” e adentrar
nesse crescente nicho do setor educacional. Cabe a ressalva
que, no funcionalismo publico, para atrair uma mão de
obra mais qualificada o estado elevou o vencimento de Mestres
e Doutores em até 40%.
A
questão é nova e deverá ser objeto de discussões
mais consistentes no futuro. Esse artigo objetiva trazer a pauta
do dia uma questão desconhecida do gestor educacional,
e discutir a fronteira que separa a ameaça da oportunidade
nessa questão. Desenvolver cursos para atender a essa
demanda crescente é a solução mais objetiva
para esse problema. Essa demanda é concreta e deve –
cada vez mais – ser incorporada a formação
de alunos em níveis distintos. Afinal se um universo
de seus alunos de ensino médio terá como objetivo
enfrentar essa prova, talvez seu currículo deva ser atualizado
nessa direção.
Sob
uma perspectiva estritamente mercadológica, hoje, torna-se
preponderante para as instituições de ensino sérias
monitorar a performance de seus estudantes e egressos nesses
concursos públicos. Cada vez mais será diferencial,
aos olhos de futuros alunos, o indicador “X% de Alunos
Aprovados em Concursos Públicos. Como um dia foi “X%
de Alunos aprovados em Direito”.