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O Inimigo Oculto: Alunos do Ensino Médio fogem da Graduação para tentar carreira no Funcionalismo Público.
Rafael Villas Bôas

O título desse artigo poderia perfeitamente ser “Pela primeira vez o setor público tornou-se mais desejável que o setor privado na busca de empregos”.

Essa manchete poderia, também, ser seguida do subtítulo “Sua Instituição de Ensino contempla essa realidade e oferece um curso com vistas a esse mercado?”. Ainda que a resposta seja, para a grande maioria das escolas e faculdades, negativa, essa é uma questão nova que precisa ser mais conhecida e debatida nos fóruns da gestão educacional.

A questão do Novo Eldorado dos empregos no funcionalismo público (não existem precedentes para a recente corrida atrás das vagas na administração federal, estadual e municipal) foi o tema abordado pela matéria principal da Revista Veja de julho desse ano, que estampou um movimento do setor educacional, bastante claro para aqueles que acompanham de perto a evolução e as mudanças na base de clientes das Universidades e Faculdades Privadas de nosso país: “Cinco Milhões querem o governo como patrão” (!).

A revista anunciava alguns dados entusiasmantes para os jovens cujo sonho é entrar no mercado de trabalho, já na introdução da reportagem: “Só nesse ano 100.000 novos cargos serão disputados em concursos que atraem milhões em busca de bons salários, estabilidade (estima-se que menos de 1% dos funcionários públicos percam o emprego todos os anos), ascensão na carreira e prestígio profissional”.

Por um lado a informação (politicamente questionável) já vinha processada e debatida no lead do texto: “A proporção de funcionários públicos entre os trabalhadores com carteira assinada no Brasil passou de 17%, na década de 80, para 22%, hoje (mais de 9 milhões de brasileiros). É uma proporção maior do que a do Chile, da Argentina, dos Estados Unidos, da Inglaterra”. Parte desse movimento – a revista explicou – dá-se pela lei das burocracias, segundo a qual, deixadas à própria sorte, elas crescem de tamanho e ampliam indefinidamente seus privilégios. Outra parte – segundo a Veja – dá-se pelo gigantismo do estado brasileiro, que obriga os cidadãos a cinco meses só para custear as despesas do governo (pagando impostos).

Se o caminho é inflar o setor público, por meio da criação de novas, novas, e novas vagas (afinal o governo gasta 48% da verba disponível com a folha de pagamento) em detrimento de investir no setor privado e criar condições reais de crescimento econômico e geração de empregos (num cenário prospero onde 100 mil vagas seriam o menor reflexo do desenvolvimento econômico e social), não cabe a esse artigo responder.

Mais que uma questão política, no entanto esse fenômeno reflete em um mundo de ameaças (reais) e oportunidades (concretas) ao gestor de uma Instituição Educacional Privada, principalmente nos níveis Médio e Superior de ensino.

Afinal esses alunos preparam-se para o Concurso Público em “Cursinhos”. Voltando aos fundamentos da teoria de Concorrência de Porter, esses “Cursinhos” seriam novos entrantes do setor educacional, que absorvem parte substancial da demanda por Ensino Superior e que por vezes não são devidamente computados nos planejamentos das IES. Competem com o nível superior, por uma lado, e são o caminho trilhado por muitos estudantes saídos do 3 ano do Ensino Médio, por outro. A tabua de salvação para a qual muitos Pré Vestibulares deveriam nadar.

Esse fenômeno começa a aparecer em algumas pesquisas pontuais de instituições de todo o pais. Essas pesquisas vêm apontando algumas tendências de consumo educacional, de necessidades e expectativas de uma parcela do mercado consumidor cada vez mais relevante. Duas tendências merecem destaque:

a) Em algumas praças os Cursinhos para Concursos Públicos vêm absorvendo a demanda por ensino superior.

A maioria dos estudantes de Ensino Médio não está devidamente esclarecida em relação aos benefícios de uma boa formação de nível superior. Acreditam que uma boa formação seja aquela em competências técnicas para o mundo do trabalho, e que uma boa faculdade seja aquela que forme (e cada vez mais “encaminhe”, também) para bons empregos e para o mercado. Uma visão bastante limitada da formação universitária, mas construída por anos da comunicação deturpada de faculdades que reduzem, na mídia, seu serviço aos resultados de curto prazo na vida profissional, apenas.

Nesses casos, para aqueles alunos do Ensino Médio cuja motivação principal seja “conseguir um emprego” a formação no 2 Grau basta para atuar em diversas vagas da administração publica. E as pesquisas apontam que para muitos conseguir passar em um concurso, tornou-se uma nova fase antes de cursar a faculdade.

Se antes o caminho era trilhado por:
Ensino Médio > Ensino Superior > Mercado de Trabalho
No novo paradigma de muitos alunos essa realidade agora migrou para o modelo:

Ensino Médio > Concurso Público (algumas vezes perseguido por anos) > Ensino Superior > Concurso Publico para uma vaga melhor.

Essa é uma tendência, posto que concursos internos permitem que os funcionários “concurseiros” pleiteiem cargos melhores – progredindo ao longo de sua carreira (efeito quase inexistente até poucos anos), enchendo as salas de aula dos cursinhos preparatórios.

Cabe uma comparação: inscreveram-se no ensino superior em 2005 (últimos dados oficiais do INEP) 4.7 milhões de candidatos as vagas da graduação. Desses, 2.5 nas IES particulares.

Fonte: Análise Setorial 2007 – Hoper Educacional.

De outro lado 5.000.000 de brasileiros inscreveram-se, em 2006, em 300 concursos promovidos no país para preencher vagas em repartições federais, estaduais e municipais (43% mais candidatos que no início da década). Em 2007 os números de pessoas interessadas nos bons salários, estabilidade e ascensão na carreira devem ser ainda mais altos. Desse total apenas 500 mil (10%) se inscreveram nas escolas preparatórias. Ainda assim esse setor triplicou de tamanho nos últimos anos. Esse segmento do setor educacional é um negocio milionário que envolve desde os cursos até as Editoras especializadas e empresas orientadas a organização e aplicação das provas (a previsão é que apenas essas empresas faturem R$ 500.000.000,00 até o final do ano com a taxa de inscrição dos candidatos).

b) Em algumas regiões os alunos cursam uma faculdade apenas com o objetivo de participar de concursos públicos pra vagas de melhor remuneração.

Os níveis de empregos oferecidos pela máquina governamental são diversos. Vão desde vagas para portadores do diploma do Ensino Fundamental, apenas, até vagas para graduados em todas as áreas. Por isso o perfil do candidato é variado. Se muitos egressos do Ensino Médio procuram atingir esse status antes de cursar uma faculdade (e nesse caso o concurso publico torna-se um concorrente do curso superior), por outro lado alguns estudantes universitários vão para a aula apenas para ganhar o grau e poder concorrer por melhores remunerações em vagas para profissionais formados (os salários são em media 97% mais altos que no setor privado e a media do ganho do funcionário público passou na última década de R$1400,00 para R$ 4.700,00, contra R$ 2125,00 do Chile e R$ 8200,00 dos EUA). Nesse caso o Concurso Público torna-se a raison d'etre do ensino superior.

Nesse nível o recém formado concorre com profissionais experientes em busca de reconhecimento e crescimento na carreira. Se no passado a faixa etária media dos alunos dos cursos preparatórios para concurso tinha entre 40 e 60 anos, hoje as salas de aula estão lotadas de jovens de 25 anos (mais da metade recém saídos da faculdade). Talvez isso explique a baixa procura por muitos programas de Pós Graduação. Uma ameaça e uma oportunidade para a Instituição de Ensino que estiver disposta a diversificar sua “cesta de produtos” e adentrar nesse crescente nicho do setor educacional. Cabe a ressalva que, no funcionalismo publico, para atrair uma mão de obra mais qualificada o estado elevou o vencimento de Mestres e Doutores em até 40%.

A questão é nova e deverá ser objeto de discussões mais consistentes no futuro. Esse artigo objetiva trazer a pauta do dia uma questão desconhecida do gestor educacional, e discutir a fronteira que separa a ameaça da oportunidade nessa questão. Desenvolver cursos para atender a essa demanda crescente é a solução mais objetiva para esse problema. Essa demanda é concreta e deve – cada vez mais – ser incorporada a formação de alunos em níveis distintos. Afinal se um universo de seus alunos de ensino médio terá como objetivo enfrentar essa prova, talvez seu currículo deva ser atualizado nessa direção.

Sob uma perspectiva estritamente mercadológica, hoje, torna-se preponderante para as instituições de ensino sérias monitorar a performance de seus estudantes e egressos nesses concursos públicos. Cada vez mais será diferencial, aos olhos de futuros alunos, o indicador “X% de Alunos Aprovados em Concursos Públicos. Como um dia foi “X% de Alunos aprovados em Direito”.


Rafael Villas Bôas - Formado em Comunicação Social pelo UNICENP, e MBA Executivo em Marketing pela Fundação Getúlio Vargas. Foi coordenador e gerente de marketing de importantes grupos educacionais, faculdades e centros universitários de todo o Brasil (III Milênio, UniCuritiba, Unifev, UniRadial entre outras). Atuou ainda como gerente de marketing da CM Consultoria e da Revista @prender. Escreve para jornais e revistas e é co-autor de "Desenvolvimento de Jogos 3D e Realidade Virtual" (Ed. Campus / Elsevier) e autor de "Campus Experience" (com lançamento previsto para fevereiro pela Ed. Summus). Atualmente é responsável pelo atendimento da Educa Comunicação e é Consultor Associado da Hoper Educacional”.
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