Ao
ler as anotações de um mestre em História,
Prof. Ms. Fábio Pires Gavião, que atua na rede pública
estadual em Santo André – SP, feitas durante o Horário
de Trabalho Pedagógico – HTPC de sua escola, confesso
que senti brotar em mim um reencantar pela educação,
sobretudo quando no final de seus rabiscos, como ele me disse,
cita um pensamento de Che Guevara.
Esse
pensamento simples, objetivo e profundo: Os poderosos podem matar
uma, duas até três rosas, mas nunca deterão
a Primavera, me fez repensar minha prática como professora
gestora, pois há tantas perguntas no ar, tantas feridas
abertas nas histórias de vida de muitos profissionais professores.
Ainda que minha mente possa parecer confusa, com as leituras que
tento fazer, pois, não consigo tempo para terminar os diversos
livros que estão debruçados e espalhados pelos móveis
de minha casa. Lembro-me de algumas idéias neles lançadas
e lancetadas nesse turbilhão de pensamentos que, por muitas
vezes, ficam encapsulados diante desse Horror Econômico,
conforme explicitado por Viviane Forrester e, da Importância
de Viver, defendida por Lin Yutang.
Não
importa quantas leituras fazemos, quantos livros lemos ou estamos
lendo, importa saber o que estamos fazendo com as reflexões
que essas leituras proporcionam. Daí, a importância
que atribuo ao pensamento desse professor, pois a velha pergunta
que todos fazem e, segundo ele, Como se diz popularmente: Essa
é a pergunta que não quer calar, os que de fato
estão comprometidos com a educação brasileira:
Que fazer? Para muitos, essa pergunta faz calar sim. Como diz
Forrester:
Somos surdos a esse silêncio, que se torna o melhor cúmplice
da expansão dos negócios que satura o planeta em
detrimento das vidas: a prioridade de seus balanços ocupa
o lugar universal, de dogma, de postulado sagrado, e é
com a lógica dos justos, a impassível benevolência
das boas almas e dos grandes virtuosos, a gravidade dos teóricos,
que se provoca o desnudamento de um número sempre crescente
de seres humanos que se perpetua a subtração dos
direitos, a espoliação das vidas, o massacre da
saúde, a exposição dos corpos ao frio, à
fome, às horas vazias, a vida horrificada (Forrester, V.
2001, Ed. UNESP. p. 32, Trad. Lorencini, A).
Seria
essa a resposta que todos os educadores pretendem?
Portanto,
o texto abaixo, pode ser uma pequena brecha em busca pela resposta.
Nosso veredito.
Que fazer?
Fábio Pires Gavião
Essa
foi a pergunta que se buscou responder na reunião desta
última quarta-feira, 27/08/08. Aliás, esta é
uma pergunta permanente dentro das Escolas públicas brasileiras,
dos partidos políticos de esquerda, dos movimentos sociais
de esquerda, etc. Como se diz popularmente: “Essa é
a pergunta que não quer calar”. Essa pergunta também
já serviu de título para uma obra de Lênin,
um livro clássico da literatura crítica mundial,
que teve sua primeira edição em 1902.
A
reunião entre os professores e professores gestores, teve
como objetivo analisar a situação escolar por nós
vivenciada, e propor medidas, procedimentos, ações
e atitudes pontuais para transformar essa realidade. Entretanto,
se pensarmos a magnitude da dificuldade de realizar essa transformação,
talvez possamos perceber que nosso objetivo é equiparável
ao objetivo de Lênin: A REVOLUÇÃO!
Vejam
bem. O objetivo é elevar substancialmente (revolucionar)
o desempenho escolar dos estudantes e matriculados da Escola!!
Seria uma utopia? Temos que crer que não. Podemos provar
que não. Mas afinal, que fazer?
Nessa
realidade escolar estão envolvidos: estudantes, matriculados,
seus respectivos pais ou responsáveis legais, professores,
professores gestores e funcionários. Logo: Todos estes
indivíduos determinados têm parte na solução
do problema. De modo mais exato, o Estado e a sociedade como um
todo e suas políticas de deseducação devem
ser comprometidos, mas não nesse texto.
O
que todos devem fazer está claro, todos sabem onde falham.
O que impede então que façam o que sabem que devem?
É exatamente uma lei da Física moderna, mais precisamente
a chamada segunda lei de Newton: a lei da inércia: se um
corpo está em movimento, ele tenderá a continuar
em movimento, até que uma força contrária
o faça parar; se um corpo está em repouso, ele tenderá
a continuar em repouso, até que uma força contrária
o faça movimentar.
Na
sugestão de Pierre Bourdieu (1930-2002), sociólogo
francês central no debate contemporâneo sobre sistemas
de ensino, o que nos impede seria a forte tendência reprodutora
do habitus. Para Bourdieu, a realidade existe duas vezes: no campo
social onde vivemos, e em nós, dentro de nós, em
forma de habitus. O habitus é justamente tudo aquilo que
nós interiorizamos desse campo social. Existe, na visão
deste autor, uma mútua influência, uma dupla determinação
entre campo e habitus, ou seja, se houver uma transformação
no campo, transforma-se também o habitus, e vice-versa.
Campos diferentes formam habitus diferentes, e vice-versa.
Para
se entender mais profundamente a tendência reprodutora das
práticas humanas, temos que enfrentar mais uma definição
do habitus: seria ele um conjunto de “estruturas estruturadas
predispostas a funcionar como estruturas estruturantes”.
Nessa definição, a palavra estrutura (que tem a
vantagem de nos lembrar que se trata de algo rígido) pode
ser trocada pela palavra prática (que tem a vantagem de
lembrar que isso está nos sujeitos em questão, já
que a prática é sempre praticada por alguém);
assim, teríamos outra definição: as práticas
praticadas predispostas a funcionar como práticas praticantes.
Poderíamos ainda usar as duas palavras: práticas
estruturadas predispostas a funcionar como práticas estruturantes.
Mas
onde a coisa “emperra” ou “desembesta”?
Na ilusão que temos de que somos pessoas que agem 100%
do tempo conscientes, racionalmente, de que tudo o que fazemos
é fruto de uma reflexão, um juízo e uma tomada
de decisão. Essa ilusão foi construída pela
difusão da noção de razão do Iluminismo
(século XVIII) e reforçada pelo Positivismo (século
XIX). Não é verdade. Na maior parte do tempo, funcionamos
de forma “inconsciente”, por assim dizer, “no
piloto automático”. E quem é o piloto? O habitus.
Tudo
isso pra dizer que a resposta para a pergunta “que fazer?”,
seria justamente a transformação do habitus dos
estudantes, matriculados, seus respectivos pais ou responsáveis
legais, professores, professores gestores e funcionários.
Mas se trata de uma transformação de ampla envergadura.
Envergadura é uma palavra pertinente, pois faz lembrar
de uma teoria do já citado Lênin: a “teoria
da envergadura da vara”. Temos uma vara que está
bastante torta para a direita, e queremos que ela encontre o seu
centro, então, devemos entorná-la, por um tempo,
o dobro para a esquerda. É necessário ser radical
(ir à raiz) para transformar o habitus, tornar consciente
aquilo que fazemos “inconscientemente”. É sem
dúvida um desafio.
Um
primeiro passo seria identificar o que não está
bom ou bom o suficiente em nossas práticas. Uma autocrítica,
um tornar-se objeto de sua própria análise, um movimento
para fora de nós para podermos nos ver. Uma vez identificado
isso, podemos nos perguntar: O que subjetivamente e objetivamente
me impede de deixar de fazer isso que não é bom?
Quais são os obstáculos? Então partimos para
a eliminação possível desses obstáculos.
Comecemos pelos obstáculos objetivos. Ex: Estou gordo de
tanto comer bolachas recheadas e de não fazer exercícios
físicos. Para emagrecer eu preciso parar de comer bolachas
recheadas e fazer exercícios. Bem, então eu não
devo ter bolachas em casa, e tenho que arrumar um tempo para fazer
exercícios. Não ter bolachas é fácil,
basta não comprá-las; ter tempo pode ser mais difícil,
mas é possível. Resta ainda o obstáculo subjetivo:
EU TENHO QUE REALMENTE QUERER. É aí que “o
filho chora e mãe não vê”.
Essa
é a raiz, o QUERER. Não há solução
aparente, não há mágica eficaz. O que é
necessário é perguntar-se: O que realmente me impede
de querer? Onde está essa força que desesperado
procuro e combalido quase não encontro? Que força
é essa que quando encontro facilmente me escapa?
Você
quase não encontra porque procura no lugar onde ela quase
não está, em você. Em você ela é
pouca e frágil ou não é suficiente. Ela está
no outro, no encontro. Mas o outro é arredio, lhe foge
“como bagre ensaboado”, o encontro é raro e
tenso. Essa força está certamente no “nós”,
no coletivo. Quando conseguirmos construir esse coletivo, estaremos
prontos para a revolução, pois de nada adiantaria
responder acertadamente à pergunta “que fazer?”,
se no momento seguinte não estivermos aptos para o FAÇAMOS!
Como
construir o coletivo? Todo coletivo começa pequeno. Nessa
primeira fase, que chamaremos de germinação, exige-se
muito dos indivíduos germinantes. Geralmente, os indivíduos
germinantes têm uma força latente, represada, e quando
encontram o espaço onde essa força possa ser exercida
e potencializada, ou seja, no coletivo, ela se realiza. Uma vez
esse QUERER forte de poucos esteja amadurecido, passamos para
a segunda fase, que chamaremos de contaminação ou
contágio, quando todos aqueles em que aquela força
está mais frágil ou até morta, aqueles que
já desistiram, que já não querem; serão
atraídos, captados para o coletivo. Com o coletivo já
maior, já composto da maioria dos indivíduos do
grupo humano em questão, chegamos à terceira fase,
a manutenção. Lembre-se que por manutenção
de algo, entendemos aplicar-lhe os reparos periódicos,
atualizações, redirecionamentos, etc.
Esse
coletivo tem uma característica peculiar, ele é
essencialmente subversivo, ele quer subverter uma ordem posta
e poderosa, afinal, ele quer revolucionar estruturas. Ele vai
agir no habitus e no campo, pois é aí que se encontram
as estruturas. Falemos um pouco do campo, ainda ancorados em Bourdieu.
O campo é um espaço de lutas, disputas ou jogos
entre os agentes que lá estão. Esse campo é
disposto hierarquicamente, existem poderes de mando, mas também
poderes de desmando (nenhum poder é total). Essa luta no
campo é profundamente simbólica, é a luta
pelos instrumentos de exercício do poder simbólico.
Por poder simbólico devemos entender: o poder de impor
a sua representação do mundo social aos demais,
de impor os “esquemas de visão e di-visão
do mundo social”. Mas onde está a força (de
violência ou violação da ordem)? Nos argumentos?
Nem tanto. Está mais no poder de mobilização
ou desmobilização que o grupo portador dessa representação
dispõe. É por esse motivo que sempre que uma idéia
revolucionária é proposta, ela é rapidamente
repelida pela maioria, e o poder dessa maioria não está
no contra-argumento, e sim no fato de que ele vai ao encontro
das predisposições do habitus dos agentes; que como
vimos, é tendente à inércia, ao não
mudar, a continuar reproduzindo as mesmas práticas, já
que isto é o mais fácil (requer menos energia).
Dessa forma, o poder de desmobilização é
quase sempre maior que o de mobilização.
Sendo
assim, nosso coletivo subversivo deve ser tenaz, deve começar
agindo nas “franjas” da ordem, muitas vezes ele sentirá
necessidade de ser “clandestino”, agindo nas brechas
das instituições. E tão logo o poder de mobilização
do coletivo aumente, ele começará a carcomer as
velhas estruturas, substituindo-as por outras que supomos que
funcionarão no sentido da transformação desejada.
No nosso caso, a nobre missão de melhorar o aprendizado
dos estudantes, de tornar os matriculados estudantes, de sermos
professores e professores gestores melhores...No limite, um mundo
melhor.
Temos
pouco mais de três meses de convivência este ano.
É tempo útil para começarmos a construir
um coletivo. EU QUERO. No caso de alguém mais QUERER, podemos
estudar quando e onde podemos nos reunir para tramar a REVOLUÇÃO.
O convite é para todos! A bandeira não é
minha, é de quem quiser empunhá-la. Caso contrário,
ficamos “cada um no seu quadrado”, mas essa é
uma frase de uma música que se chama “Dança
do quadrado”, que de fato dançamos.
Os poderosos podem matar uma, duas até três rosas,
mas nunca deterão a Primavera.
Che Guevara
Sugestões de leitura
BOURDIEU.
Pierre. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil,
1998.
LENIN, Vladimir.
Que fazer? As questões palpitantes do nosso movimento.
São Paulo: Hucitec, 1978.
ROUANET, Sérgio
Paulo. A razão cativa – as ilusões da consciência:
de Platão a Freud. São Paulo: Brasiliense, 1985.
Regina
Móvio de Lara - Mestre em Educação
em Ciências, Doutora em Políticas e Gestão Educacional,
Vice-Reitora Acadêmica da Universidade do Grande ABC e Consultora
Educacional.