A
primeira consideração sobre a EaD é o seu
próprio nome, uma vez que pelo dicionário Houaiss
o significante distância pode significar: um espaço
muito grande que separa dois seres; ato ou efeito de distanciar-se;
afastamento; separação; e, mais estritamente,
separação de indivíduos de distintas classes
ou níveis sociais devido às diferenças
entre eles ou aos preconceitos vigentes na sociedade. Essa idéia
inculcada no senso comum dificulta pensar ou sentir EaD como
uma educação que possibilite a proximidade, a
interação, a construção de valores
e, principalmente, a humanização. Distante não
é ausente.
No
momento atual torna-se necessária uma reflexão
sobre as possibilidades de uma Educação a Distância
on line, e mais, sobre suas características, seus entraves,
suas oportunidades, bem como sobre o perigo de propiciar que
o conhecimento seja considerado uma mercadoria passível
de ser comercializada ou que o computador seja utilizado como
uma ferramenta conservadora e perpetuadora dos modelos arcaicos
de educação. A EaD, com todo o enorme potencial
de ser um instrumento democratizante, favorecedor da construção
do conhecimento e um excelente meio comunicacional, pode se
tornar o canto das sereias como falam Blikstein e Zuffo (Silva,
2003, p.24) aquele que seduz para depois ludibriar, no qual
muitos profissionais foram encantados pelas melodias das novas
tecnologias e do enriquecimento fácil e rápido.
A
EaD, apesar de se configurar como um possível ambiente
de desenvolvimento de toda a sociedade, foi e pode vir a ser
manipulada de maneira a privilegiar somente a questão
mercantilista, ficando a serviço, novamente, de um restrito
segmento da sociedade que visa unicamente o lucro. No mercado
há inúmeras ofertas de cursos e-learning do tipo
broadcast (tutorial) que se auto-intitulam revolucionários
e capazes de solucionar todas as mazelas da aprendizagem. Dessa
maneira a hegemonia saturante se instala e banaliza a criatividade.
Todos os milagres são prometidos e encontram eco em ouvidos
menos críticos, principalmente quando as soluções
mirabolantes se encontram encobertas sob uma pesada maquiagem
de uma tecnologia de ponta, dita como capaz de sozinha ser o
fator da inovação, da transformação
e das mudanças educacionais. Algumas empresas oferecem
treinamentos a distância, mas nem sempre desenvolvem uma
metodologia de aprendizagem, nem experienciam os novos conceitos
de interatividade, no qual a própria geração
de conteúdos é vital para a interatividade e para
a perfeita interpretação do significante-conteúdo.
A tecnologia não é neutra, é desenvolvida
com intencionalidade, mas, por si própria, isolada, está
desprovida de valor ou funcionalidade, o que fará o diferencial
será aquilo que porta o pior perigo, mas que também
traz as melhores esperanças, a saber, a própria
mente humana. Daí advém a grande importância
da reforma do pensamento capaz de transformar uma tecnologia,
que eventualmente tenha sido gerada e pensada para fins de controle
e dominação, em instrumentos de emancipação.
Algumas
empresas estão trabalhando com EaD de forma tradicional
e engessada, a transformar impressos em livros eletrônicos
sem preocupação com a linguagem, com a comunicação
e com a aprendizagem. Nelas o indivíduo é valorizado
quando consegue inserir-se no contexto coletivo, entrando na
era do coletivo inteligente (Levy, 1993), que é composto
pelas inteligências internas e externas das empresas,
a formar uma célula única que se expande conforme
o movimento desejado. A grande questão que se apresenta
aqui é a necessidade de questionar o real desejo da empresa
ou os seus interesses na utilização de um conceito
tão abrangente e necessário para a manutenção
de sistemas complexos. Fica, pois, evidenciada, pelo fato de
nesse sistema de emergência o crescimento do conhecimento
individual vir acompanhado do crescimento do todo, a ineficiência
da maioria das empresas em desenvolver um processo inovador,
clarificando um conhecimento linear e unidirecional.
Como
todas essas possibilidades são ainda novas e estão
começando a ser experienciadas, por que não tender
a trilhar um caminho pelo qual a máquina, em sua mais
ampla objetividade e linearidade, seja o grande desencadeador
daquilo que o homem tem de mais humano, que é a sua subjetividade,
a sua afetividade, a sua amorosidade e principalmente a sua
infinita capacidade de aprender? Por que não um caminho
onde essa nova identidade que estamos construindo, a personalidade
eletrônica, esteja a serviço de todos, do coletivo,
do bem comum, enfim, em função de uma sociedade
mais igualitária e justa?
A
EaD vista somente como um local onde se poderá disponibilizar
uma quantidade enorme de materiais, como se fosse uma vasta
biblioteca virtual, na qual o indivíduo tenha uma relação
de simples leitor de uma infinidade de autores, é banalizar
todo o potencial de comunicação, interatividade
e negociação de signos que esse ambiente favorece,
uma vez que, ao trabalhar com a subjetividade expressa através
da língua, o imponderável surgirá. E com
ele surgirá também a necessidade de aprender a
trabalhar com as incertezas permanentes. Essa é uma característica
primordial para viver e conviver na sociedade atual.
“Se
a educação não transforma sozinha a sociedade,
sem ela tampouco a sociedade muda. Se a nossa opção
é progressista, se estamos a favor da vida e não
da morte, da equidade e não da injustiça, do direito
e não do arbítrio, não temos outro caminho
senão viver plenamente a nossa opção. Encarná-la,
diminuindo assim a distância entre o que dizemos e o que
fazemos”.
Paulo Freire
Referências
bibliográficas:
LEVY,
Pierre. As Tecnologias da Inteligência, Editora 34, Rio
de Janeiro, 1993.
SILVA, Marcos (org.). Educação on line. São
Paulo: Edições Loyola, Brasil, 2003.
Aglaé
Cecília Toledo Porto Alves – Coordenadora
de EaD de CENP e Supervisora de Ensino da Diretoria de Ensino
Norte 2.