Sempre
achei original a maneira que algumas escolas atendem os clientes
em períodos de novas matrículas. Na maioria das
vezes que presenciei ou testei modelos de atendimento de escolas,
escutei sobre um mundo de fantasias. Todas afirmam ser a melhor
escolha, com os melhores benefícios, pelo melhor custo.
E o mais interessante é que cada uma prometia um presente
extremamente agradável e um futuro promissor para os
alunos. Exatamente nesse ponto começava a confusão
na minha cabeça: para muitas dessas escolas, o futuro
promissor não se traduzia em planos estratégicos.
Mesmo as que tinham planos estratégicos, estes não
previam mais de um ou dois anos à frente. As que não
tinham planos estratégicos se satisfaziam com a elaboração
do calendário anual e escolha de materiais didáticos.
Ora,
como a escola prometia um futuro promissor, se ela não
sabia quais seriam suas escolhas futuras? Se o ciclo da Educação
Básica é de 14 anos (da Educação
Infantil ao Ensino Médio), como uma escola pode prometer
um futuro promissor se ela não sabe o que vai fazer com
o cliente daqui a três, quatro ou cinco anos? E as perguntas
não paravam de vir a minha mente: Para onde essa escola
queria ir? Como a escola gostaria de ser percebida? Qual o perfil
profissional dos futuros colaboradores da escola?
Para
explicar essas reflexões, proponho um retorno ao passado.
Até a década de 1960, salvo raras exceções,
as escolas particulares eram exclusivas para três categorias
de clientes: os que consideravam indispensável o ensino
religioso, os que desejavam manter seus filhos próximos
às raízes dos seus países de origem e os
que não gostavam de se esforçar para serem aprovados
em exames de admissão em escolas públicas, caso
de cidades (em geral capitais) que contavam com boa estrutura
educacional pública.
Com
o início do regime militar, as escolas públicas
sofreram cerceamento da liberdade de trabalho e, ao perceber
a oportunidade de atender melhor a classe média, que
pagava pelo ensino, professores e administradores, abriram colégios
leigos, sem conexão religiosa ou étnica. Esse
mercado ficou em franco crescimento até que os clientes
começaram a perder o poder de compra. Os sucessivos planos
econômicos lançados entre as décadas de
1980 e 1990 provocaram a mudança do hábito de
consumo da classe média, levando a busca por opções
mais baratas ou com a retirada dos alunos do ensino básico
privado. Os gastos em educação passaram a ser
direcionados para o ensino superior, como suporte ao aluno na
universidade pública ou pagamento do ensino superior
privado.
Para
o mercado de educação básica privada esse
foi o mais duro golpe recebido. A perda do poder de compra dos
seus atuais e futuros clientes passou a provocar uma situação
até então não pensada nas escolas: a concorrência
acirrada. Passaram a sobressair no mercado dois modelos de escolas:
as que mostram relevância pedagógica e as que mostram
eficiência na sua gestão administrativa, em geral
constituídos de recortes de soluções que
tiveram êxito em outros segmentos da área de serviços.
O presente e o futuro apontam que as escolas que terão
sucesso serão as que aliarem os dois modelos, com ênfase
na gestão estratégica do seu negócio.
Mas
o que é estratégia? Na vasta bibliografia sobre
o tema, podemos coletar pelo menos uma dezena de definições.
Destaco algumas:
WRIGHT
(et al, 1992:3) definiu estratégia como “planos
da alta administração para atingir resultados
consistentes com as missões e objetivos da organização”.
GIMENEZ
(1998, p. 72) define estratégia como “o conjunto
dos objetivos, finalidades, metas, diretrizes fundamentais e
os planos para atingir esses objetivos, postulados de forma
a definir em que atividade se encontra a companhia, que tipo
de empresa ela é ou deseja ser”.
Para
COLOMBO, Sonia (2004, p.18) “Estratégia abrange
um conjunto de decisões que orientam as ações
organizacionais, mobilizando a empresa para construir o seu
futuro perante o ambiente em que está inserida. É
o caminho escolhido ou a maneira considerada adequada para alcançar,
de forma diferenciada, os desafios estabelecidos”.
Segundo
KAPLAN e NORTON (2004, p. 5) “a estratégia de uma
organização descreve como ela pretende criar valor
para seus acionistas, clientes e cidadãos”. Mas,
segundos os mesmos autores, não existem duas organizações
que pensem sobre estratégia da mesma maneira: enquanto
algumas descrevem sua estratégia sob ponto de vista de
planos financeiros, outras se prendem a qualidade e aos processos,
sob a perspectiva dos recursos humanos, no desenvolvimento tecnológico
ou ainda com base em seus produtos e serviços. Com essas
visões unidimensionais e estreitas, construídas
pelos gerentes de cada área, poucas empresas mostram
uma visão holística da organização.
HENDERSON
(1998:5) afirma que “estratégia é a busca
deliberada de um plano de ação para desenvolver
e ajustar a vantagem competitiva de uma empresa”, quando
explica que a competição empresarial segue uma
linha muito parecida com a da evolução das espécies,
onde na luta pela sobrevivência, empresas ou seres vivos
precisam se diferenciar para se perpetuar.
Para
MINTZBERG e QUINN (1998), “uma estratégia é
resultado de um processo analítico de coleta de dados
sobre o ambiente externo e interno da empresa, que resulta em
um plano de negócios. A estratégia busca a certeza
e não o consenso”.
Ao
mesclar todas essas definições e peneirá-las
sob o ponto de vista da gestão de escolas privadas, chegamos
a conclusão que a estratégia só pode ser
concebida se construída por todos que deveriam fazer
parte do processo decisório, ou seja, do faxineiro ao
diretor, passando pelo inspetor, professor e coordenador. Além
disso, precisamos ter certeza que a concepção
de uma boa estratégia não é condição
base para o sucesso na gestão. Ter a estratégia
correta significa que sabemos quem somos e para onde temos que
caminhar. O caminho deverá ser construído segundo
a visão, missão e objetivos a serem alcançados.
Para escolas a estratégia é, portanto, a garantia
do olhar do futuro da organização educacional.
Mas
como muitas escolas vivem para o ano letivo seguinte, onde a
necessidade de provar o que ela é agora é mais
importante do que mostrar o que fará com que ela cumpra
o prometido futuro promissor ao aluno, a estratégia é
delegada aos ventos da concorrência, cada vez mais profissional
no planejamento e execução de sua estratégia.
E
aqui entra mais uma intrigante pergunta: o que determina o sucesso
de uma escola? A resposta virá no próximo artigo.
Bibliografia:
WRIGHT,
P., PRINGLE, C., and KROLL, M. Strategic Management Text and
Cases. Needham Heights, MA: Allyn and Bacon, 1992.
GIMENEZ,
F. A. P. Escolhas estratégicas e estilo cognitivo: um
estudo com pequenas empresas. In: Revista de administração
contemporânea, v. 2, n.1, 1998. p. 27-45.
COLOMBO,
Sonia Simões. Gestão Educacional : Uma Nova Visão.
Porto Alegre: Artmed, 2004. 18p.
KAPLAN,
Robert S., NORTON, David P. Mapas estratégicos –
Balanced Scorecard: convertendo ativos intangíveis em
resultados tangíveis; tradução de Afonse
Celso da Cunah Serra. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004 –
6ª reimpressão.
HENDERSON,
B. D. As origens da estratégia. In PORTER e MONTGOMERY,
C. A. Estratégia: a busca da vantagem competitiva. São
Paulo: Campus, 1998.
MINTZBERG,
H., QUINN, J. B. O Processo de Estratégia. Porto Alegre:
Bookman, 1998.
Denis
Drago - Responsável por projetos especiais do
Centro de Tecnologia e Gestão Educacional do Senac Rio,
conteudista da Pós-graduação em Gestão
Educacional do Senac, consultor de organizações
educacionais públicas e privadas de Ensino Básico
e Superior há 17 anos, Pedagogo, Pós-graduado
em Gestão de Pequenas e Médias Empresas pela FGV
– RJ, mestrando em Administração, Educação
e Comunicação pela Universidade São Marcos
– SP.