Educação e Informação

Como as escolas sobreviverão durante e após a pandemia?


Tuner, Wiliian. The Fighting Temeraire, 1839.


O mundo em que vivemos, resultante da pandemia do novo coronavírus, está nos conduzindo a uma situação, guardadas as proporções, semelhante ao final da Segunda Guerra Mundial (1939 -1945).


Segundo o relatório do Banco Mundial, publicado em junho de 2020, a previsão de queda nas atividades econômicas na economia global deverá ser de 5,2%; no Brasil, essa queda será de 8,0%.


A vice-presidente do Banco Mundial, Ceyla Pazarbasioglu afirma que: “Trata-se de uma perspectiva profundamente desanimadora, com a probabilidade de a crise causar cicatrizes duradouras, e impor grandes desafios globais.”


Além dessas considerações do Banco Mundial, observamos outros fatores da situação interna em nosso país: segundo o IBGE, no universo de 2,7 milhões de empresas em atividade, 70% dos empresários apontam impacto negativo em seu negócio, a taxa de desemprego no último trimestre alcançou 13,1%, ou seja, cerca de 12,8 milhões de pessoas estão sem trabalho e a ocupação no mercado de trabalho atingiu o seu menor índice histórico.


Nesse contexto, as instituições privadas de ensino, enfrentando esses desafios impostos por esta realidade, se dividirão em três tipos de grupos:


1. As escolas que emergirão maiores e melhores

2. As escolas que submergirão (sofrerão redução em seus tamanhos e lucros), mas ainda existirão.

3. As escolas que deixarão de existir. Isso nos leva a estabelecer uma analogia entre a escola atual e o navio de guerra inglês Temeraire (retratado por Turner em sua obra The Fighting Temeraire, 1839 e apresentado na capa desse artigo). Temeraire, em 1805, desempenhou um papel fundamental na vitória inglesa na Batalha de Trafalgar, contra esquadra franco-espanhola de Napoleão Bonaparte e, também foi essencial em todos os momentos, das guerras napoleônicas. Com a paz instalada, a partir de 1815, o Temeraire, passou a ter cada vez menos relevância em relação aos novos navios adequados à modernidade e às necessidades pós-guerra; primeiro, ficou ancorado servido com navio de abastecimento, até que, em 1838, o decadente navio foi vendido para John Beatson, um destruidor de navios e comerciante de madeira, apenas pelo preço dos cinco mil carvalhos com os quais foi construído. A escola das últimas décadas, inspirada no modelo do século XIX (conteudista e que atribui ao professor o papel de controle do universo pedagógico), é o nosso “Temeraire” ela teve sua importância e lugar na história, mas, agora, demonstra pouca eficácia na satisfação das necessidades educacionais da sociedade do século XXI. E, nesse cenário, podemos afirmar que uma crise se instalou. Em seu texto A crise na Educação, Hannah Arent refere-se: “à oportunidade, fornecida pela própria crise – a qual tem sempre como efeito fazer cair máscaras e destruir pressupostos – de explorar e investigar tudo aquilo que ficou descoberto na essência do problema.” A oportunidade que a crise gerada pela pandemia do novo coronavírus possibilita caminharmos em um novo patamar de reflexão e ação, deixando de lado os velhos pressupostos e preconceitos.


Por fim, tal qual o Temeraire, esse modelo de escola desempenhou um papel de destaque para as necessidades da sociedade em seu tempo, porém, uma nova jornada para a educação iniciou-se, sem ser anunciada previamente. E, assim, no início de 2020, começamos efetiva e, tardiamente, o século XXI da educação.


O desafio da escola atual transita pela implementação de novos critérios de planejamento, execução e avaliação das ações da escola.


Por isso, será necessário, conceber uma nova escola, que se prove eficiente e eficaz. Ela será eficiente se selecionar e contratar os melhores profissionais, instalar salas de aula e laboratórios modernos, efetivar plataformas educacionais, selecionar e utilizar o melhor material didático para o público atendido, possuir as melhores ferramentas tecnológicas, construir espaços de convivência para todos; e, será eficaz promovendo a educação de um aprendiz que seja um ser capaz de interagir, ter autonomia, trabalhar e criar conhecimento que o mundo contemporâneo exigirá dele.


O velho Temeraire não realizará as novas jornadas de capitação e de retenção de alunos; assim como os modelos de gestão financeira, administrativa e de pessoal até então vigentes não serão adequados no novo cenário.


A pandemia forçou, inicialmente, algumas mudanças significativas; algumas já estão em curso e, outras, precisarão ser intensificadas. Dentre elas, podemos citar:


1 A implantação de metodologias ativas, o uso de tecnologias digitais

O protagonismo dos alunos e dos professores foram as soluções imediatas, em substituição às velhas e “consagradas” metodologias da maioria das escolas. A chegada da modernidade (metodologias ativas por meios digitais) ocorreu quase que por decreto; mas, em tempos de crise, o homem tende a encontrar as melhores soluções para o avanço da humanidade e, dialogando com Patrícia Distassi, em seu artigo “Crise ou Renascimento Cultural e Pedagógico”, transformaremos o que alguns chamam de "ano perdido na educação" em um "Renascimento Cultural e Pedagógico".


2 Implementação efetiva de uma jornada de formação continuada de professores

Grande parte dos professores realizaram sua formação inicial em um modelo metodológico que não dialoga com as necessidades contemporâneas (metodologias ativas, em particular, apresentadas por meios digitais).


Por isso, será necessário instituir uma jornada permanente de formação continuada que possua o objetivo da mudança na prática pedagógica dos professores por meio: da autorreflexação, compreensão da nova realidade, apropriação de novas ferramentas metodológicas e tecnológicas, estudo de casos e criação de soluções educacionais, novas teorias e práticas.


As escolas precisarão investir recursos e esforços para implementar uma jornada de formação continuada de professores com quantidade e quantidade de intervenções promotoras de ressignificação da prática educativa.


3 Formação de equipes de tecnologia educacional.

Algumas escolas já anteciparam a criação desse novo e essencial setor, que na maioria das escolas não existia ou existia de forma subdimensionada.


A criação ou fortalecimento da equipe de mentoria tecnológica será uma condição fundamental para o funcionamento e para a realização das entregas do processo educacional. Além disso, serão necessários investimentos robustos em tecnologia (equipamentos, plataformas entre outros).


4 Um novo modelo de capitação e de retenção de alunos para 2021

À luz da nova realidade mundial advinda da pandemia do novo coronavírus, os critérios que nortearão as capitações de novos alunos e a retenção das turmas existentes, precisarão certamente serem revisitados e redimensionados. Devemos revisitar e redimensionar dentre outros critérios: mercado, custo de aquisição de alunos, taxa de novos alunos, negociação com os inadimplentes, descontos nas mensalidades, formulação dos valores das novas mensalidades, diferenciais da escola, o chamado “encantamento”, fidelização e lifetime value.


5 Equipe enxutas de alta performance Será necessário criar equipes que operem à luz dos paradigmas da alta performance.

Eduardo Ferraz em sua obra Gente de resultado: manual prático para formar e liderar equipes enxutas de alta performance: alude aos “Quatro desafios do Comandante”, os quais podem se converter em importantes ativos para as escolas que dispuserem a enfrentá-lo. São eles:

1. Embarcar as pessoas certas e desembarcar as erradas.

2. Colocar as pessoas certas nas funções certas.

3. Decidir a rota com as pessoas certas.

4. Ter como principal prioridade manter ao menos 90% das pessoas certas nos lugares certos.

6 Promover Educação para o mundo complexo


As escolas possuem o desafio e a oportunidade de contribuir na formação de aprendizes que tenham as competências e habilidades de construir conhecimentos, soluções, sabedoria, e, sobretudo, que tenham a percepção do valor inerente ao ato de “aprender a aprender” para se mantem conectados a um mundo em constante evolução, bem como para se apropriarem de todos os benefícios que essa efervescência científica, criativa, comunicativa, convergente e complexa pode possibilitar.


A leitura correta desse cenário e das necessidades atuais de sua escola, bem como a seleção das prioridades e a agilidade na tomada de decisões, possivelmente, definirá a qual grupo dos três grupos a instituição fará parte.


É o momento de permitir que o Temeraire tome o seu lugar no seu passado e que novas jornadas de navegação desenhem o presente e o futuro da escola.


Adalberto Miranda Distassi

Mestre em Educação

MBA em Gestão Estratégica em Negócios

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A Pandemia do Novo Coronavirus e as Estratégias Educacionais
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