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Bibliotecas como espaços comuns de aprendizagem

No Brasil a adoção da biblioteca na escola ou na universidade passa por uma série de contradições, desde o descaso, pouco investimento e falta de entendimento sobre o seu papel, entre tantos outros pontos que poderíamos salientar. Por outro lado, temos uma série de legislações e discussões sobre esses espaços educacionais, que reavivam o olhar e a “aceitação” da biblioteca como real possibilidade de ser um espaço comum de aprendizagem.

Uma discussão de extrema relevância hoje na área da Biblioteconomia, é a aproximação do cumprimento da Lei Federal 12.244/2010 que trata da obrigatoriedade de se ter biblioteca em todas as escolas até 2020. Sim, essa lei existe e soa até estranha quando a lemos, mas foi preciso uma lei para atestar o óbvio, que seria uma escola com biblioteca e com bibliotecário.

No Ensino Superior, penso que a biblioteca corre menos riscos de descrédito, ao menos por enquanto, como ocorre com a biblioteca escolar. O instrumento de avaliação do MEC – Ministério da Educação e Cultura, a cita no item de infraestrutura, faz indicações sobre o acervo bibliográfico e mais recentemente sobre a organização e disponibilização dos trabalhos de conclusão de curso. É possível que com o avanço da oferta do EAD e as questões do ambiente virtual tenhamos ainda mais ganhos, já que livros digitais podem fazer parte da bibliografia.

Mas o que levou o Brasil a ter um dos menores números de bibliotecas nas escolas? E quando se tem a biblioteca, há o descumprimento da contratação de pessoal especializado, com formação superior em biblioteconomia - lembrando que a profissão tem legislação profissional própria desde 1962. Passados mais de cinquenta anos, temos uma série de problemas nas escolas públicas e particulares e a ausência muito forte do bibliotecário. As instituições públicas tiveram como saída a inserção de professores readaptados e adoção de salas de leitura, saída para mudar o nome, na tentativa de fugir da fiscalização. Muitas escolas particulares, não cumpriram a lei atual e nos últimos anos têm distribuído os livros em salas de aula, alegando pouca participação dos alunos quando se tem o local, alto investimento, falta de espaço e priorização para salas de aulas e outros laboratórios.

Como se compõe uma biblioteca escolar ou universitária?

É importante considerar uma equipe maior, com funções determinadas a partir de algumas frentes de atuação, como o bibliotecário de seleção, que irá trabalhar diretamente com as questões ligadas aos instrumentos do MEC e recebimento da comissão, e o bibliotecário de aquisição, responsável pela parte de compra, contratos e pagamentos de acervos impressos ou digitais.

Com o acervo adquirido, seja por compra, doação e/ou conteúdo produzido pela instituição, esse precisará ser tratado, catalogado, indexado e ter disponibilizado o seu conteúdo. Por fim, deverão ser desenhados os serviços, que farão com que esses e outros conteúdos, públicos ou não, estejam à disposição dos alunos e frequentadores da instituição.

E para que a biblioteca? Como inovar e repensar esse espaço?

O processo de produção, disponibilização e busca de conhecimento hoje é desenvolvido de forma coletiva e ao mesmo tempo individualizada. As pessoas compartilham, mas também produzem conteúdo. Na contemporaneidade, chamada por Baumman de modernidade líquida, o escritor polonês cita que a “modernidade imediata é 'leve', 'líquida', 'fluída' e infinitamente mais dinâmica que a modernidade 'sólida' que superou”. Neste contexto, a escola, a universidade e a forma que aprendemos passaram por mudanças significativas. Como fazer com que tenhamos a biblioteca na escola e na universidade? Como esse espaço físico e virtual pode colaborar com esse novo aluno do século XXI?

Quando cada aluno tem o potencial de carregar uma biblioteca global em seu dispositivo – celular, tablet ou notebook, o papel das bibliotecas físicas pode se tornar ainda mais importante, não apenas um lugar para busca de recursos tecnológicos, mas um lugar para criar um significado a partir deles. As bibliotecas do século XXI podem oferecer um espaço comum acolhedor que incentiva a exploração, a criação e a colaboração entre alunos, professores e uma comunidade mais ampla.

 

Pontos a considerar para essa mudança:

  1. Conceito de sala invertida, onde a pesquisa e a investigação são bases para o desenvolvimento crítico e autônomo do aluno, neste contexto, escola com bibliotecas com espaços e serviços dinâmicos, podem fazer parte do currículo e da forma que se pesquisa.

  2. Conceito de learning commons para bibliotecas, essas como espaços comuns de aprendizagem, com laboratórios, áreas de convivência, conteúdos e espaços de estudo, recursos informacionais diversificados, empréstimo de notebooks, espaço de experimentação tecnológica e outros. Para otimizar espaço, a instituição pode compor a biblioteca a partir de outros ambientes, como laboratórios de informática, gameficação, espaço acessíveis e favorecendo a autonomia e o trabalho por projetos, por exemplo.

  3. Estimular a pesquisa e o desenvolvimento para além da sala de aula, propiciando a permanência maior na escola.

Para se pensar em reposicionamentos das bibliotecas na escola, é preciso envolver os corpos docentes e discentes, colaboradores e profissionais, estimulando-os a repensar que biblioteca desejam. A partir de uma lista construída de forma colaborativa, o grupo irá participar da proposta desse novo espaço. Essa ação fará com que erros e acertos sejam tratados com a mesma importância valor.

Utilizar recursos do design thinking, com fases que estimulam a imersão, ideação e prototipagem, que tem como objetivo pilotar projetos, que são mutáveis e que fornecem aos envolvidos e a gerência uma maior segurança, já que essa parte é experimental e permite erros e acertos.

Estamos muito aquém das inovações e experiências das escolas americanas, canadenses e europeias quando falamos de bibliotecas como espaços comuns de aprendizagem. Mas já temos algumas experiências brasileiras que demonstram ganhos significativos para alunos e docentes, com escolas e universidades que investem tempo e dinheiro, com projetos de repensar a biblioteca e seu uso. O primeiro passo é ter uma biblioteca em sua escola. Desconsiderar isso já será uma forma de retrocesso, o que nos faz voltar para o início do artigo e de toda a história que está por trás da falta de investimento em bibliotecas.

Referências que inspiraram:

BAUMAN, Z. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

MODESTO, Fernando. Inovação em bibliotecas universitárias, definições e exemplos. Salvador: CBBD, 2018.

Cristiane Camizão Rokicki é Coordenadora da Rede de bibliotecas do Senac SP e foi palestrante no VII Encontro Nacional de Bibliotecários de IES e Escolares, realizado pela HUMUS no dia 25 de outubro de 2018.