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Gestão Educacional

Profissionalização docente: a formação de professores para o ensino superior

Muito se discute no Brasil a respeito das deficiências da formação do professor do ensino básico. Esse é um grave problema, que precisa de uma bem planejada e urgente solução, já que é pela educação que poderemos transformar o país. Apenas com professores bem formados isso será possível. Entretanto, temos visto menos discussões sobre os problemas da formação do professor do ensino superior. Gerenciar uma sala de aula envolve muita técnica, conhecimentos teóricos e práticos. Não basta a boa vontade do docente ou a formação adequada em sua área de origem. Um administrador que atua num curso superior não pode ser um “administrador que dá aulas”. Ele precisa ser, de fato, um professor.

A boa formação pedagógica do docente é essencial, principalmente num momento histórico em que temos tantos alunos com acesso ao ensino superior, que chegam aos cursos com diferentes histórias e bases de aprendizagem. É obrigação das instituições de ensino promover boas oportunidades neste sentido a todos eles. O professor precisa estar preparado pedagogicamente para lidar com toda a heterogeneidade de uma turma. Deve estar pronto para lidar com as caraterísticas dos jovens de hoje e prepará-los para atuar nas profissões que conhecemos, e também nas que ainda serão criadas. É uma responsabilidade muito grande, que exige um preparo proporcional.

Apesar da complexa atuação do docente universitário, o que se vê na prática, geralmente, é uma boa parcela de professores que se formaram na sua área, tiveram experiências profissionais e, depois, começam a dar aulas. Não há, para essa grande parcela, uma formação consistente em docência antes de se tornar o responsável pelas aprendizagens de turmas com dezenas de alunos. Para esses profissionais, a formação para atuar com os estudantes se dá na prática, no dia a dia.

Ele já faz o que está a seu alcance para começar ou continuar a se formar como docente: recorre aos seus colegas, estuda de maneira autônoma e autodidata, faz os cursos que estão dentro de suas possibilidades, participa de comunidades de prática, entre outras formas. Por conta própria, ele já consegue superar muitas dificuldades. Entretanto, muitas lacunas se mantêm nesse caminho.

Como dar uma aula expositiva que mantenha a atenção do aluno ao invés de cansá-lo e promover a distração? Como usar metodologias ativas que engajem o estudante? O que fazer para que o estudante se sinta motivado e saiba como gerenciar seu próprio processo de aprendizagem, visando uma formação integral como indivíduo, cidadão e profissional?

Para dar ao professor esse background necessário para gerenciar bem uma sala de aula e promover aprendizagens significativas, é muito importante conhecer a educação brasileira, porém também beber em outras fontes que podem nos inspirar, trazendo os resultados de práticas que têm gerado excelentes índices de aprendizagem em outros países. Um exemplo que destaco são as formações docentes que professores finlandeses têm trazido ao Brasil, compartilhando reflexões e ações que levaram a Finlândia ao topo dos rankings internacionais nesta área.

Aprendizagens com a educação finlandesa | Em 2017 e 2018, 70 professores brasileiros foram certificados pela Universidade de Tampere no curso Teaching and Learning in Higher Education, que aborda questões essenciais para a formação do docente contemporâneo. Esses docentes aprenderam questões relacionadas à aplicação de diferentes teorias de aprendizagem em contextos reais de sala de aula, à abordagem de aprendizagem centrada no estudante, à criação de ambientes flexíveis de aprendizagem e o entendimento da competência pedagógica como uma competência da comunidade acadêmica, entre outros importantes temas. Além disso, receberam mentoria de professoras finlandesas na criação de projetos pedagógicos que foram de fato implantados em suas instituições. É uma formação que passa pela prática, pela sala de aula real. Assim, dá sentido social para a formação docente, o que ajuda muito o professor a entender as mudanças que ele quer e pode realizar em suas práticas e no processo de aprendizagem de seus alunos. Agora em 2019, uma nova turma deste curso terá início e serão mais docentes envolvidos neste singular processo de formação.

O interessante em pensar como podemos aprender com os finlandeses é que foi por meio da conscientização do papel do professor e de sua formação que eles desenvolveram tanto aquele país recentemente. Há poucas décadas, nos anos 70, a Finlândia promoveu uma grande reforma em seu sistema de educação. Um dos pilares foi a valorização do docente e de sua formação. Nas universidades daquele país, todos os professores precisam ter uma consistente formação pedagógica para entrar em sala de aula, independente se são engenheiros, químicos, jornalistas ou médicos. O resultado é uma população com altos índices de aprendizagem, o que reflete na excelente qualidade de vida dos cidadãos.

Isso aconteceu na Finlândia e pode acontecer no Brasil. Certamente, a mudança aqui também terá que passar pela formação de nossos docentes. Sem boa formação do professor, não haverá boa formação do aluno. A educação precisa ter papel central nos projetos de desenvolvimento do país e apenas se entendermos o papel que o professor tem neste sentido para o Brasil é que haverá uma transformação sustentável.

Marcelo Battistella Bueno é CEO da Ânima Educação e será palestrante no GEduc – Congresso de Gestão Educacional, que será realizado pela HUMUS nos dias 27, 28 e 29 de março de 2019.