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Governança Corporativa e a Alta Gestão – Alinhando discurso e prática

Manuais de normas e procedimentos, programas de compliance, modelo de governança e aqueles quadros muito comuns nas entradas das empresas, às vezes espalhados pelos corredores e salas de reuniões, com a missão, visão e valores da instituição.

É muito comum nos depararmos com esse quadro que invariavelmente nos transmite a sensação de que a empresa é um modelo de gestão a ser seguido.

Muito comum também é você conversar com os colaboradores da empresa e ouvir que “na prática não é bem assim”.

Os fatos que vieram à tona mais recentemente por conta da Operação Lava Jato, trouxeram questionamentos dos mais diversos.

Sobre o tema Compliance, perdi a conta de quantos seminários, palestras, congressos, etc. para os quais fui convidado, e em todos eles uma pergunta era recorrente: Por que empresas com procedimentos de Governança e programas de Compliance considerados como exemplos de gestão profissional, não conseguiram impedir que tantas irregularidades ocorressem?

As respostas quase sempre apontam para o andar de cima da pirâmide corporativa. O envolvimento no processo tem que ser de todos, mas a alta gestão não pode mandar sinais trocados para as equipes. É aquela expressão presente em quase todos os treinamentos para implementação de um programa de compliance: “Tone at the Top”.

Sem entrarmos nas questões políticas que influenciaram essa perda de norte em relação às boas práticas de gestão e aos princípios da ética no caso da Lava Jato, é fácil colocar na intranet o organograma, os princípios, as normas e procedimentos e a estrutura de governança com seus conselhos e comitês. Tudo bem escrito, links que nos levam para partes específicas do programa de compliance, seu sistema de monitoramento e auditoria, risk management, como a empresa lida com situações que geram conflitos de interesses e assim por diante.

De acordo com o IBGC, os quatro pilares da Governança Corporativa são: transparência, equidade, prestação de contas (accountability) e responsabilidade social corporativa. Invariavelmente, esses princípios estão representados nas diversas formas como a empresa comunica sobre seu modelo de gestão.

Não há como imaginar uma empresa com gestão profissional sem que ela atenda minimamente aos requisitos desses quatro pilares. A questão é que são muitos atores envolvidos, também conhecidos como stakeholders. São clientes, fornecedores, acionistas, colaboradores, terceirizados que muitas vezes dizem que trabalham na sua empresa e não na empresa terceirizada que é quem paga seu salário.

O fato é que poucas coisas geram mais insatisfação, e funcionam como um combustível que alimenta a famosa rádio corredor das empresas, do que os sinais trocados que os colaboradores recebem, ou seja, quando a prática está desalinhada em relação ao discurso, ao que está escrito nos manuais, nos códigos de conduta, etc.

Se a empresa informa em seu manual de normas e procedimentos que determinado processo deve ser feito de uma forma, caso haja necessidade de se fazer diferente, por qualquer que seja o motivo, é imprescindível que esta exceção seja documentada e fique muito clara para as partes envolvidas.

Porque não tem jeito, se for uma contratação de pessoal que não seguiu todos os procedimentos estabelecidos, algumas pessoas do RH saberão. Se for a liberação de crédito para um cliente, pulando etapas no processo de análise de crédito e avaliação de risco, abrindo exceções, funcionários da área de crédito e cobrança também tomarão conhecimento, assim como a equipe de compras na hora da contratação de um fornecedor ou do contas a pagar se você pedir para pagar o fornecedor antes do prazo sem que ele lhe conceda um desconto por essa antecipação.

É nesse contexto que os ruídos começam a reverberar. Alguns entendem de forma diferente porque quem lhes falou sobre o assunto já é um terceiro que só ouviu parte dos fatos.

Sistemas, processos e pessoas movimentam qualquer organização. Esse tripé deve funcionar de forma harmônica, praticando o que está nos manuais e demais documentos que evidenciam o modelo de gestão da empresa.

Boa governança é um exercício diário, que não admite a prática descolada do discurso. Se isto começa a ocorrer, é questão de tempo para que uma série de fatos desconfortáveis apareçam para os gestores e eles não terão argumentos sólidos para explicar à sua equipe porque o procedimento naquele caso foi diferente.

Por isso, é melhor começar com poucas e boas práticas que consigam ser administradas e cumpridas, do que se ver amarrado com tantos controles que a exceção vai se tornando regra e os ruídos na comunicação interna só aumentarão.

Isso gera uma sensação de que os controles são apenas para “inglês ver”, os executivos têm cada vez menos condições de explicar de forma convincente porque determinado procedimento que não vale para um, vale para o outro e o “na prática não é bem assim” vai ganhando corpo.

O maior benefício de uma boa Governança Corporativa é o alinhamento de interesses entre os diversos participantes de uma empresa, principalmente seus sócios, independentemente do seu porte.

Isto só é possível com uma comunicação clara para todos os envolvidos no processo e quem dá o tom nesse alinhamento é a alta gestão. E é nela que os colaboradores irão se espelhar.

Luiz Henrique Cordeiro é CFO do Colégio Santo Américo e será palestrante no GEduc 2019, durante o III Fórum de Governança Corporativa em Educação. Conheça a programação e faça sua inscrição pelo site www.geduc2019.com.br