Gestão Educacional 39 | HUMUS

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Gestão Educacional

Na Contraluz da Escola

A escola está sendo desafiada à inovação, ao reconhecer as megatendências e se organizar de maneira a efetiva- mente contribuir na formação de seus estudantes. Sim, a educação se repensando a ponto de apoiar o desenvolvimento desses cidadãos e profissionais do futuro.

Um futuro que se apresenta fluido, tecnológico, colaborativo. Que requer capacidades de resolução de problemas, flexibilidade, criatividade e muito respeito à tanta diversidade – de pessoas, de ideias, de maneiras de se construir um protótipo ou uma realidade.

Os colégios se esticam da melhor maneira que podem. Precisam alcançar, com uma das mãos, a afetividade, a ludicidade, a boa convivência. Reconhecer que escola não serve para somente preparar para o futuro, mas considerar que esse sujeito já vive, hoje! Com outra de suas mãos, se esforça a alcançar a tecnologia, a eficiência e a apropriação de muito conhecimento, sendo, também, mobilizado nas habilidades e suas competências, especialmente por meio das metodologias ativas.

Com um discurso revitalizado, retornam-se os fundamentos de uma educação integral, que cuida desse sujeito congruente, integrado em pensamento/cognição, socio-emoção, corpo e transcendência. As metodologias ativas que se propõem a uma melhor retenção daquilo que se aprende. Afinal, ao fazer, ativamente, o conhecimento se torna ferramenta para resolver as questões da vida.

 

Isso provocou uma avalanche de possibilidades de discursos à oferta de serviços.

 

São tantas exigências feitas à escola que a noção de redes e parcerias ocasiona um deslocamento mais ágil em direção às novas metas de oferta de serviços educacionais. Bilinguismo, robótica, ambientes maker, linguagem de programação, gamificação, instigam a uma modificação rápida da dinâmica da escola (como se pressupunha que seria bom), mas ocorre, em muitas vezes, de maneira irrefletida.

Inovar é bom e necessário. As escolas particulares, principalmente, se arregimentam de diferenciais competitivos que justifiquem a escolha das famílias a uma, em detrimento de outra instituição. Afinal, a atratividade de mercado sustenta todo o ciclo de captação de alunos, fidelização e balanças financeiras favoráveis à sua manutenção e crescimento.

 

Certa vez ouvi uma diretora dizendo, em virtude da pressão por resultados financeiros, que quando via as crianças correndo no pátio de sua escola, ela já as imaginou como se fossem cifrões. Alerta! Se uma educadora chega a pensar assim, chegamos a um ponto crítico tal, que precisamos parar um pouco e repensar nossas práticas e tomadas de decisão, comparando-as aos nossos propósitos educativos.

Robótica é bom. Bilinguismo é bom também e se orienta a uma formação desse sujeito intercultural. As metodologias ativas, embora estejam sendo apresentadas como uma suposta panaceia para resolver todos os males da escola, é boa, e precisa ser aplicada reflexivamente, a ponto de ressignificar a concepção educativa e não somente como uma prática nova que vem e que daqui a pouco vai novamente embora.

 

Como, então, sobreviver a esse tempo de múltiplas, coloridas e encaixáveis ofertas de agregados ao serviço que se oferece na escola, e ainda garantir que as intenções educativas, agora, desse revitalizado projeto pedagógico, possam ser garantidas?

 

Penso que o reconhecimento do que sejam as INOVAÇÕES PERTINENTES pode nos ajudar nessa hora. Para isso, precisamos recorrer às teorias de inovação.

 

Inovação pode se dar no nível individual/grupal, em nível de processos ou de organizações. Um único professor inova naquela escola e vira outdoor. A nova sala de ambiente maker foi construída na escola, mas seu uso ainda se faz pela instrução direta do professor. A oferta do novo se faz por profissionais especializados, que vieram de fora, mas não provoca a reflexão dos demais que ali estão. Tudo bem valorizar essas experiências inovadoras, mas estas não estão retratando uma escola pertinentemente inovadora. Talvez a inspire a chegar lá um dia, aos poucos.

 

Percebe-se que a inovação requer insumos, como espaços, pessoas e recursos, como também deve se aplicar a um novo conceito de aprendizagem, que se faz pela experimentação, pela problematização,  provoca  uma  cultura de estudos e autorresponsabilização, opera o pensamento associativo e se faz com protagonismo, na busca de novos saberes.

 

Para provocar a inovação na escola, precisa-se de uma liderança transformadora. Se faz necessário possuir uma intenção estratégica de inovar, ao realizar uma gestão de pessoas para inovação, desenvolvendo as atuais e selecionando as próximas com esse perfil. Se faz mister debruçar-se em conhecer o perfil do estudante e analisar o mercado, operar uma gestão estratégica da tecnologia aplicada, e aprender a fazer gestão de projetos. Tudo isso sendo relacionado ao cumprimento do currículo.

 

Uma inovação é um fôlego novo que se traz ao processo. Ela retira a convencionalidade e o fazer sempre do mesmo jeito e nos leva a reconhecer o novo, a abertura às novas experiências, à oferta propositiva daquilo que nunca eventualmente tenhamos valorizado ou mesmo pensado. Aprende-se com o novo professor, aprende-se com o professor ousado, mas também deve-se reduzir a escuta que se faz até com certo desdém, do professor antigo e convencional, pois será a partir de seu reconhecimento que se fará possível sensibilizá-lo e mobilizá-lo a uma mudança de prática, gradativamente.

 

Para que uma inovação encha o espaço da escola, ela deve ser pertinente. Crie critérios de avaliação para validar suas escolhas e os responda, antes de tomar uma decisão:

 

Essa inovação que eu gostaria de implementar/valorizar, contribui para:

  • o fortalecimento da proposta pedagógica que queremos?

  • a alavancagem dos estudantes no desenvolvimento das habilidades?

  • se efetivar no tempo que pode ser destinado a ela?

  • cumprir o currículo escolar?

  • desenvolver habilidades de um docente cada vez mais mediador da formação discente?

  • Faça a sua hipótese de análise!

 

O que se percebe é que a entrada de tantas novidades, simultaneamente, está operando um fazer desgovernado e, por vezes, utilizando-se de uma megaestrutura para o desenvolvimento de uns poucos itens curriculares. Muito tempo para pouca coisa. Muito investimento para pouca inovação pertinente.

 

Certo professor me consultou a necessidade de aplicar o método ativo da “sala de aula invertida”, pois ele assim realizou e percebeu que os resultados novos foram piores que os antigos. Me enveredei a pesquisar a causa e percebi que essa técnica requer uma avaliação conceitual antes de se realizar, segundo a obra que “deu origem à série” de publicações a respeito. Detalhe pequeno que passou...

Um fazer sem sentido, sem reflexão, sem técnica, portanto, modismo. Assim, desperdiça-se a estratégia, que poderia ser boa, pois não se teve tempo de aprender sobre ela, adequadamente. É possível que professores como esses se convençam da ineficiência da inovação e retornem às suas aulas tradicionais, embora as conceitue de mais eficientes. Já não teria sido assim com a pedagogia de projetos, com a educação para o pensar e com tantas outras práticas da escola?

 

Na implantação de uma INOVAÇÃO PERTINENTE, fazer parcerias segue como auxílio especializado, mas devem gradativamente buscar maior aderência aos processos da escola, que realmente precisa se inovar, para se apresentar forte diante dos desafios dos tempos de inteligência artificial e das habilidades socioemocionais.

 

A inovação pertinente requer pessoas inovadoras, tecnologia para o fazer e para gerenciar esse fazer, parcerias, muito estudo, e tempo de consolidação das práticas.

 

Lilian Neves é Co-founder da joint venture WELETO e assessora acadêmica da Rede Batista de Educação. Foi palestrante do GEduc 2019 - XVII Congresso Brasileiro de Gestão Educacional.

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