Inovação 3 | humus

ARTIGOS

Inovação/Tecnologia

Inovação

Inovação é uma palavra que a gente ouve muito por aí, dadas as necessidades dos tempos atuais. Inovar, dizem, é necessário, mas afinal o que é de fato inovar?

Inovar vem do latim innovare, que significa realizar algo novo ou que nunca havia sido feito antes; produzir novidades: uma empresa que está sempre inovando.

No caso do ensino superior prega-se a inovação para fins de captar novos alunos e reter aqueles já matriculados. Na prática, a inovação pregada e tão falada, na maioria dos casos, não passa do famoso “mais do mesmo”!

Inovar é difícil e exige mudança de cultura; cultura esta que, uma vez enraizada nas instituições de ensino superior, são difíceis de serem extirpadas!

Vou regularmente às bancas de jornais com meus filhos, que adoram comprar gibis da turma da Mônica. Um dia, porém, fui surpreendido pelo meu filho mais novo (de 10 anos) que, ao invés de escolher um gibi, optou por uma revista de arquitetura que trazia como conteúdo principal fachadas de residências. Perguntei para quê ele queria tal revista, e me respondeu: para criar casas no meu Minecraft!

Para quem não sabe, Minecraft é um jogo eletrônico, tipo Xbox, que permite a construção de casas e outras construções usando blocos dos quais o mundo é feito. E, o meu filho mais novo diz que quer ser arquiteto. Será que os cursos atuais de arquitetura oferecem alguma disciplina que usa o Minecraft? As instituições de ensino superior estão preparadas ou se preparando para receber e saber trabalhar (formar) os futuros alunos com perfil semelhante ao do meu filho? Não!

Aliás, vai aqui um pequeno parêntese sobre esse negócio de aluno. Uma coisa que vejo com frequência são as IES tratando o aluno como “o educando”! Que coisa horrível! Aluno de curso superior não é aluno de ensino fundamental ou médio. Supõe-se que ele já esteja educado (tanto pelo EF como pelo EM e, principalmente, pela família) quando ingressa no curso superior, logo, trata-lo como “o educando” soa um tanto quanto infantil para tal categoria de estudante! Mas vamos em frente!

 Vejo na inovação um papel importante da biblioteca que, atualmente, tornou-se uma espécie de “elefante branco” dentro das IES. Existem só para atender (e isso quando atendem!) as exigências do Ministério da Educação em processos de avaliação, e não passam de um simples depósito de livros. Em sua maioria é um lugar “frio”, sem nenhum atrativo e com funcionários apenas “cumprindo tabela”! No modelo de inovação a biblioteca deixa de ser um “agente passivo”, e volta a ser um “agente vivo – ativo” dentro da instituição de ensino, colaborando de forma intensa na formação do aluno, como deveria ser sempre! Mas como? Há várias formas. Por exemplo, todo curso de graduação tem as disciplinas Metodologia da Pesquisa e o famoso Trabalho de Conclusão de Curso (obrigatório na maioria dos cursos de graduação). Em 99% dos casos, essas disciplinas são ministradas em sala de aula, por professores que dizem ser “entendidos do assunto”. Por que não reverter esse aprendizado e a prática da pesquisa para o interior da biblioteca? Tirar essas disciplinas da sala de aula, e fazer com que o profissional da Biblioteca capacite o aluno a desenvolver a habilidade de fazer buscas em bases de dados, e também estruturar o seu TCC com base nas Normas ABNT. Ficaria a cargo do docente, somente e tão somente, a orientação do desenvolvimento do projeto de TCC, mais nada. Isso é só um exemplo. Pode se fazer muito mais que isso. Outro exemplo seria transformar o espaço bibliotecário não só em um centro de aprendizagem, mas em um amplo espaço de convivência.

A inovação depende também de um planejamento. Ao se estruturar uma matriz curricular, deve-se proporcionar ao aluno um aprendizado dinâmico, que fuja ao padrão “aula de 50 minutos”! Quando se pensa em oferecer uma determinada disciplina dentro de uma matriz curricular, há de se pensar qual competência tal disciplina irá conferir ao estudante; competência geral, de fundamento e técnica (se for o caso). Que produto ela irá gerar? Não se pode pensar mais em fazer o aluno aprender (ou decorar matérias) e replicá-las em provas tradicionais e funestas – a disciplina deve prever um produto final que o aluno deverá ter condições de desenvolver e apresentar ao final da mesma. Os Conteúdos podem, ainda, ser divididos em teóricos e práticos quando possível, alinhando-os às competências previstas. O Conteúdo de cada disciplina deve ser refinado a tal ponto que cada item desse refinamento esteja sempre alinhado às Competências previstas. Finalmente, os conteúdos ministrados devem prever uma atitude do aluno, que abrange curiosidade, criatividade, pesquisa etc. Tal planejamento dá uma nova faceta ao NDE – Núcleo Docente Estruturante, colegiado este que, em muitos casos, é apenas decorativo, sem poder de decisão e é mais um elemento para atender às exigências do MEC em avaliações de cursos.

A estrutura da matriz curricular apoiada, sem dúvida nenhuma, em um projeto pedagógico igualmente inovador, deve permitir ao estudante flexibilizar sua formação, capacitando-o a enfrentar um mercado de trabalho cada vez mais exigente e disputado.

 

A, já em prática, “sala de aula invertida” é uma tendência que pode ser considerada ainda, uma Inovação, pois altera a forma de aprendizado e contribui para, como já dito em parágrafos anteriores, a redefinição do papel da biblioteca no aprendizado. Vale lembrar aqui que neste modelo (flipped classroom), estuda-se o básico antes da aula, com vídeos, textos, arquivos de áudio, games (olha uma chance para o Minecraft) e outros recursos. Em sala, o professor se aprofunda em exercícios, estudos de caso e conteúdos complementares.

“Puxando a sardinha para o meu lado”, como se diz no velho ditado popular, dada minha formação e atuação em cursos de engenharia, a “sala de aula invertida” é ideal para os cursos de graduação em engenharia, que são os campeões de evasão em qualquer IES por motivos amplamente conhecidos!

Nesta mesma linha (ou complementar a ela), há a opção da “aprendizagem maker”, na qual o graduando que põe a mão na massa aprende muito mais, segundo uma pesquisa da Universidade de Stanford. O aprendizado que acontece a partir da experimentação, onde utiliza-se ferramentas de prototipagens rápidas para construir suas próprias invenções, é uma ótima alternativa para revolução no ensino na área das engenharias. É um estímulo à criatividade e auxilia no processo de retenção do aluno no curso, que passa a encara-lo de forma mais atraente!

Tanto a prática da “sala de aula invertida” como o modelo da “aprendizagem maker”, o conceito de sala de aula, do ponto de vista físico e pedagógico torna-se ampliado, inovador e diferenciado! Seja qual for o método adotado, não se podem relegar ao segundo plano os recursos tecnológicos digitais e o espaço virtual, em um saudável ambiente de ensino, pesquisa e aprendizagem.

Mas seja qual for a inovação, essa exige planejamento e capacitação daqueles que irão geri-las, implementa-las e vivencia-las no dia-a-dia das instituições de ensino superior.

Samuel José Casarin é Doutor em Engenharia na EESC-USP.