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A interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade no ensino híbrido

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As instituições educacionais encontram-se fortemente pressionadas a implementarem a sua própria transformação digital. Há necessidade de se realinharem às demandas da Sociedade da Informação, o que inclui o mundo do trabalho marcado pela economia digital. Há novos requisitos de conhecimento e competência dos diversos setores produtivos, bem como mudanças sociais, em comunidades cada vez mais interconectadas, onde a produção e a disseminação de conhecimento se aceleram ao ponto de alcançar volume e velocidades inéditos na história da humanidade.

Para tentar acompanhar essa mudança paradigmática, a ciência ocidental está sendo repensada, novas teorias são formuladas diante da complexidade, uma tentativa de avançar em detrimento da crescente insuficiência explicativa da análise cartesiana baseada na noção de especialidade (FILHO, 2005).

De acordo com o autor (op. Cit., 2005), entram em pauta a insuficiência das respostas oriundas de campos disciplinares muito rigorosamente delimitados como parte de uma estratégia de organização histórico-institucional da ciência fundamentada na fragmentação do objeto, numa crescente especialização dos pesquisadores e dos que ensinam com base no conhecimento científico, tendo como resultado a disciplinaridade.

A interdisciplinaridade tem uma perspectiva diferente. Ela diz respeito ao intercâmbio. Seja pela aplicação dos conhecimentos de uma disciplina em outra, a utilização dos métodos de uma disciplina em outra ou pela geração de novas disciplinas, como foi o caso dos métodos da matemática para o campo da física, que geraram a física matemática. Segundo CHIMENDES et al. (2018), a interdisciplinaridade “ultrapassa as disciplinas, mas sua finalidade também permanece inscrita na pesquisa disciplinar.”

De acordo com os autores (op. Cit., 2018), a transdisciplinaridade diz respeito àquilo que está, simultaneamente, entre e através das disciplinas, indo além de qualquer disciplina. Seu objetivo é a compreensão do mundo presente, para o qual um dos imperativos é a unidade do conhecimento por meio de múltiplos olhares, com seus respectivos dispositivos práticos e teóricos.

Mantendo-se a importância da estrutura de uma disciplina com o seu objeto, como categoria que organiza o conhecimento científico, a transdisciplinaridade evita o isolamento da totalidade de um ramo do conhecimento. Esse novo modelo mental vai necessariamente influenciar novos desenvolvimentos em didática, levando à reflexão das discussões atuais no campo das teorias da aprendizagem.

Já se sabe que as tecnologias digitais e as diferentes maneiras de uso desses recursos podem criar novas formas de aprender e revitalizar ambientes de aprendizagem. Nesse sentido, a adoção do ensino híbrido abre amplas possibilidades para que a prática da interdisciplinaridade e da transdisciplinaridade na interação ou integração de distintos campos disciplinares.

O ensino híbrido é um programa formal de ensino em que o estudante tem parte da aprendizagem elaborada a partir de conteúdo, interações e mediações online.  O aluno tem alguma flexibilidade quanto ao tempo, local, ritmo de estudos e sobre as trilhas de aprendizagem a serem cursadas. Parte das atividades é realizada sincronamente na escola ou em outro espaço, sob a supervisão de um professor.

Em especial atenção ao pós-pandemia, o ensino híbrido tem o potencial de aumentar a flexibilidade das escolas e instituições de ensino superior para atenderem alunos e professores que deverão voltar a frequentar os espaços físicos em dias e horários alternados. Pode reduzir as necessidades de infraestrutura, oferece alternativas economicamente sustentáveis para desenvolver programas de recuperação e a reorganização do calendário escolar e acadêmico.

A personalização das trilhas de aprendizagem a serem superadas pelos estudantes que apresentarem alguma dificuldade é mais viável com essa abordagem. Há vários tipos de ensino híbrido, que podem ser praticados em momentos alternados com a mesma turma, a depender dos objetivos de aprendizagem pretendidos e o perfil dos estudantes.

A partir dos diferentes componentes do ensino híbrido é possível repensar as arquiteturas pedagógicas (CARVALHO et al., 2005), que busca “pensar propostas pedagógicas em sintonia com as possibilidades oferecidas pela tecnologia... na articulação entre a concepção construtivista de aprendizagem e a pedagogia da pergunta.”

Nessa concepção, segundo os autores (op. Cit. 2005), essa articulação pode ser sintetizada em cinco princípios pedagógicos: (1) educar com vistas à busca de soluções para problemas reais, que façam parte da vida dos educandos; (2) educar para que os sujeitos sejam capazes de transformar as informações em conhecimentos; (3) educar para incentivar a autoria, a interlocução e o uso de diferentes linguagens; (4) educar para a construção da autonomia e da cooperação; (5) educar para promover sujeitos investigadores e reflexivos.

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Referências

CARVALHO, Marie Jane S.; NEVADO, Rosane Aragon de; MENEZES, Crediné Silva. Arquiteturas pedagógicas para educação a distância: concepções e suporte telemático. In Anais do XV Simpósio Brasileiro de Informática na Educação, Universidade Federal de Juiz de Fora, 2005.

CHIMENDES, Vanessa Cristhina Gatto; ANDRADE, Herlandí de Souza; ROSA, Adriano Carlos Moraes (et al.). Práticas pedagógicas para desenvolver o espírito crítico científico no aluno. In Revista Espacios, v. 39, n. 49, 2018.

FILHO, Naomar de Almeida. Transdisciplinaridade e o paradigma pós-disciplinar na saúde. In Saúde e Sociedade, v.14, n.3, p.30-50, set-dez 2005.

 

Luciano Sathler é Reitor do Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix, em Belo Horizonte e Membro do Conselho Científico da Associação Brasileira de Educação a Distância – ABED e será palestrante do I FÓRUM DE GESTÃO DO ENSÍNO HÍBRIDO, que acontecerá no dia 13 de abril, durante o GEduc 2021. Inscreva-se!

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