Educação Empreendedora, uma necessidade
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Rui Fava
O empreendedorismo é uma força motriz que tem moldado a humanidade ao longo dos séculos. Sua história é tão antiga quanto a própria civilização, porém ganhou notoriedade como conceito profissional no século XVII, durante a Primeira Revolução Industrial, ao diferenciar quem assumia riscos de quem fornecia capital.
Embora a prática de assumir riscos para lucrar mais exista desde a Idade Média, o termo foi disseminado no início do século XIX, pelo economista e empresário francês Jean-Baptiste Say, ferrenho defensor da concorrência e do livre comércio, para descrever aquele que assume riscos e desloca recursos econômicos para áreas de maior produtividade.
Posteriormente o conceito foi popularizado pelo economista austríaco Joseph Schumpeter, associando-o à ‘destruição criativa’, conceito que descreve como a inovação contínua substitui modelos de negócios, tecnologias, serviços e produtos antigos por novos, impulsionando o progresso econômico por meio do empreendedorismo.
Seguindo a linha de Schumpeter, o professor americano Clayton Christensen, promoveu uma ruptura no conceito original, assinalando que a tecnologia altera radicalmente os mercados existentes que são vulneráveis, pois todas suas ofertas são adaptadas às necessidades de seus consumidores existentes.
Hodiernamente, adentramos em uma transição comparável ao nascimento das corporações industriais do século XIX, ou das plataformas digitais nos anos 2000. A diferença é que agora as empresas e organizações são desenhadas para integrar e colaborar com a inteligência artificial e não tão somente utilizar algoritmos e softwares.
Novos modelos Organizacionais
Novos modelos institucionais estão emergindo, com estruturas mais leves; coordenação distribuída; utilização intensiva de agentes de IA; menos hierarquia tradicional; velocidade extrema de decisão; organização orientada por redes e ecossistemas. Times pequenos com produtividade e receita de companhias gigantes. São empresas construídas assumindo desde o início que a inteligência artificial será a responsável pela operação central e não mais como ferramenta auxiliar.
Exemplos:
Empresa ‘AI-Native’ – É uma organização criada com a IA no centro do negócio, não somente como ferramenta de apoio, mas como parte integrante e essencial do produto, do serviço, da operação e da tomada de decisão. Distintamente de empresas tradicionais que adicionam IA em seus processos, a AI-Native já nasce orientada por automação inteligente desde o início; aprendizado contínuo; produtos orientados por dados; decisões alicerçadas em algoritmos; escalabilidade com baixo aumento proporcional de pessoas. De outro modo, a inteligência artificial não é um departamento isolado, ela é uma sofisticada integrante da organização. É o caso da Open AI; Anthropic; AmazoniaAI; ResolveAI; MaxmeAI; Upstar, entre outras
Empresa ‘AI-First’ – Trata-se de uma organização que coloca a inteligência artificial como prioridade estratégica principal no modo de operar, inovar e competir. Diferente da AI-Native que já nasce alicerçada em IA, a AI-First poderá ser uma organização tradicional que passa a reorganizar processos, produtos, serviços e decisões, colocando a inteligência artificial no centro. O mantra, o pensamento dominante da empresa é: Como podemos fazer qualquer coisa ou todas as coisas utilizando IA? No Brasil, existem inúmeras empresas tradicionais ou startups que estão funcionando com as caraterísticas de uma instituição AI-First . Entre estas é possível destacar: Big Brain; Magalu; Nubank; iFood , entre outras. De certa forma, mais cedo ou mais tarde, todas as empresas tradicionais deverão migrar para ser uma AI-First, trata-se de um caminho sem volta.
Organizações Agênticas – Esse modelo de negócio talvez seja o mais promissor na ‘Era Inteligente’. Aqui a empresa se torna uma rede de humanos e agentes de IA, todos trabalhando unidos como times híbridos. De outro modo, modelos em que pessoas, sistemas de IA e processos operam com alto nível de autonomia, coordenação inteligente e tomada de decisão distribuída.
Formada por equipes pequenas supervisionadas por múltiplos agentes. A IA executa fluxos completos; os humanos focam na gestão, curadoria, criatividade, inovação. São organizações orientadas a resultados (outcomes) e não apenas tarefas. Na prática um gestor humano poderá coordenar centenas de agentes e departamentos inteiros poderão virar sistemas.
Resumidamente a Organização Agêntica é altamente adaptativa e parcialmente autônoma, onde humanos e agentes de IA colaboram continuamente para atingir objetivos de modo descentralizado e dinâmico. Representa uma evolução das empresas digitais para modelos orientados por autonomia, inteligência distribuída e aprendizado contínuo.
Educação Empreendedora
A formação empreendedora está se tornando cada vez mais relevante, já que na Era Inteligente, não basta ensinar, é precisar formar para transformar. Somado a isso, salienta-se que objetivo dos jovens da geração IA de possuir um negócio próprio é maior do que o sonho de desenvolver uma carreira profissional, indicando que a sociedade enxerga na alternativa do empreendedorismo a melhor oportunidade de consolidar seu propósito de vida.
Nessas circunstâncias, a escola não deve tratar empreendedorismo como uma disciplina ou área de conhecimento isolada, e sim como uma competência que demanda o desenvolvimento por meio de práticas interdisciplinares. Isso expressa que o mérito da educação empreendedora está alicerçada no aperfeiçoamento de competências e habilidades que formam um cidadão, integral, autônomo e proativo. As estratégias pedagógicas devem partir da inspiração e utilização de múltiplas metodologias instrucionais, experienciais e experimentais, trazendo um novo modo de aprender e preparar os estudantes para irem em buca de seus propósitos e objetivos. Assim, eles estarão preparados e prontos para enfrentar um mundo digital cognitivo mais exigente, dinâmico, célere e tecnológico.
Conclusão
A empregabilidade, trabalhabilidade e empreendedorismo mutuaram profundamente suas características. As ocupações não são as mesmas, pois requerem competências e habilidades mais intelectualizadas. As empresas tradicionais estão lentamente se tornando uma ‘inteligência coordenadora’, pois a IA está derrubando o custo de coordenação, supervisão e gerência, razão pela qual estamos vendo menos hierarquia; mais redes, mais automação decisória; mais estruturas híbridas (humanos e IA). Essas metamorfoses expressam uma mutação civilizacional.
Quem provavelmente terá o domínio nessa nova Era Inteligente não serão as organizações com estruturas gigantes, burocráticas, lentas, cheias de camadas gerenciais, e sim, as instituições adaptativas, empresas AI-Native, AI-First, Organizações Agênticas, redes modulares, plataformas coordenadoras e ecossistemas com agentes.
Se isso for verdade, o futuro da educação empreendedora é assertivo, positivo e incontestável. As escolas deverão urgentemente adaptarem seus processos instrucionais. A formação empreendedora deverá estar integrada em todos em todos os níveis de educação (do básico ao superior), em todos os currículos de todos os cursos e em todas as áreas de conhecimento. Assim como o lifelong learning evolution, também empreendedorismo não poderá ser visto como alternativa, uma disciplina optativa, mas como uma competência vital para o futuro desses jovens que querem entrar, manter-se e ascender no mercado de trabalho, seja por meio da empregabilidade, trabalhabilidade ou empreendedorismo.
Ludovico Bernardi é executivo do ensino superior, com atuação estratégica nas áreas de gestão acadêmica, expansão institucional, regulação educacional e posicionamento de mercado. Atua no desenvolvimento de projetos voltados à sustentabilidade, performance institucional e fortalecimento de marcas educacionais, com foco especial nos segmentos de saúde, pós-graduação e educação executiva. Reconhecido por sua visão analítica e posicionamento estratégico, contribui ativamente para debates sobre inovação, regulação, crescimento sustentável e transformação do ensino superior brasileiro.
ARTIGO:
O maior erro estratégico de parte do ensino superior brasileiro foi acreditar que ainda estava apenas no setor da educação. Não está mais.
As IES passaram a operar dentro de um ambiente de alta complexidade regulatória, pressão financeira, transformação tecnológica e disputa por relevância social e econômica. Quem analisa o setor apenas sob a ótica acadêmica terá dificuldade para compreender o tamanho da mudança estrutural em curso.
Os dados mostram isso:
📊 Segundo o Censo do Superior 2024, a EAD representa 50,7% das matrículas. Em 10 anos, a modalidade cresceu 286,7%, e o presencial recuou 22,3%. A EAD deixou de ser modalidade complementar. Tornou-se eixo de sustentação operacional, financeira e estratégica de boa parte das IES.
E é nesse contexto que surge o novo marco regulatório. Ele não altera apenas critérios acadêmicos, redefine estruturas de custo, logística operacional, gestão de polos, modelo de expansão, experiência do aluno, compliance e capacidade de escala.
O impacto é sistêmico. O setor começou a perceber algo que o mercado já sinalizava: a sustentabilidade de uma IES não depende mais só de qualidade acadêmica, mas da capacidade de integrar:
📊 inteligência de dados;
⚖️ compliance regulatório;
💰 sustentabilidade financeira;
🤖 transformação digital;
🎯 empregabilidade;
🏛️ governança acadêmica;
📈 performance operacional;
👥 permanência e experiência estudantil.
Hoje, reuniões estratégicas entre mantenedores, CEOs e reitores discutem temas antes periféricos:
- Evasão orientada por analytics;
- Integração entre AVA, CRM e BI;
- Custo regulatório;
- Retenção baseada em comportamento;
- Maturidade digital;
- Eficiência de polos;
- Indicadores de permanência;
- IA na gestão acadêmica;
- Reputação orientada por dados.
E talvez o ponto mais crítico seja: IES ainda operam com estruturas do século passado tentando responder a um aluno, um mercado e um ambiente regulatório completamente diferentes.
O estudante mudou. O MEC mudou. O mercado mudou. A tecnologia mudou. Mas parte do setor ainda responde com modelos lentos, fragmentados e pouco orientados por IA. As IES que crescerão na próxima década provavelmente terão algumas características muito claras:
✔️ gestão baseada em dados;
✔️ forte governança regulatória;
✔️ integração tecnológica;
✔️ posicionamento institucional sólido;
✔️ foco em empregabilidade;
✔️ operação acadêmica eficiente;
✔️ experiência estruturada;
✔️ capacidade de adaptação regulatória.
Porque o debate no ensino superior deixou de ser pedagógico. Envolve: sobrevivência institucional, escala sustentável, reputação, compliance e capacidade de geração de valor para o aluno e sociedade.
A educação continua sendo missão. Mas ignorar que ela também se tornou estratégia talvez seja uma das decisões mais perigosas que uma IES pode tomar neste momento do setor.



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