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Educação e Informação

QUANDO O IMPORTANTE VIRA URGÊNCIA: SAÚDE MENTAL PREVENTIVA NA GESTÃO ESCOLAR

  • há 1 dia
  • 5 min de leitura

Este artigo é destinado a lideranças escolares, como, diretores, gestores e coordenadores que, diariamente, tomam decisões, acolhem demandas, resolvem conflitos, respondem às famílias, orientam equipes e dessa maneira, mantêm a escola funcionando diante de uma rotina atravessada o tempo todo por urgências. A proposta não é mostrar os desafios, provocar reflexões e apontar caminhos possíveis para cuidar da saúde mental na escola antes que o sofrimento vire crise.


Você já parou para prestar atenção ao barulho da escola? Estudantes e funcionários passam pelos corredores, professores entram e saem das salas, urgências e conflitos que surgem frequentemente. Mas isso não revela nada fora do cotidiano comum, por ser um espaço de convivência onde quase nada é previsível. Mas existem situações silenciosas nas quais devemos estar atentos: os alunos que entram em sala, mas já não participam como antes, os olhares cansados dos professores, a pressão das famílias que exigem resposta a todo momento, a exaustão dos coordenadores e diretores cumprindo a agenda do dia, atravessada pela resolução de problemas que não estavam no script.


Não se fala sobre esse silêncio, talvez porque ele seja carregado de subjetividade e a impressão que tenho é que se resolve em equipe as questões objetivas, urgentes e de calendário, mas não se fala de saúde mental influenciada pela rotina. Culturalmente falando se estivéssemos nesse momento conversando com um grupo de profissionais da escola, provavelmente ouviríamos: “Esse assunto, cada um trata na sua terapia”. Mas será mesmo que a saúde mental na escola pode ser tratada apenas como uma questão individual? Claro que a escola não substitui o acompanhamento clínico quando ele é necessário, mas há um ponto importante: as dores emocionais podem nascer na escola ou serem intensificadas, conforme as relações acontecem.


As respostas podem surgir se fizermos algumas perguntas? Os alunos estão sendo de fato escutados no que diz respeito à escola? Os professores têm recebido o apoio necessário para um trabalho eficiente? Os gestores têm seu espaço de reflexão e organização respeitados? A comunicação entre os setores da escola tem sido clara? E as famílias, têm sido acolhidas e, ao mesmo tempo, recebido o limite necessário para não desconsiderarem as regras da escola?


Talvez as respostas a isso tudo esteja em algo que sempre percebi em minha prática: Na escola, muitas vezes somos engolidos pelo urgente e deixamos para depois aquilo que é realmente importante: as relações, a escuta, o cuidado e a saúde emocional de quem sustenta a rotina escolar. Os impactos disso na saúde mental aparecem em diversos momentos: quando um aluno começa a se calar, quando um professor desiste de pedir ajuda, quando uma família chega sem o menor cuidado ao falar, quando a equipe faz da sala da psicóloga escolar um espaço para levar os alunos com “problemas comportamentais”.


Quando os gestores passam o dia inteiro resolvendo urgências, chegando ao ponto de adiar necessidades básicas, como ir ao banheiro ou tomar água. Quem vive o cotidiano escolar sabe que esse último exemplo não é um exagero. Pelo contrário, ele revela o nível de intensidade e sobrecarga que, muitas vezes, se torna invisível por fazer parte da rotina.


Nesse ponto estamos diante de uma escola no seu limite. O importante não cuidado, retorna em forma de urgência e o ciclo se repete: Relações desgastadas, todos correndo de um lado para o outro, eventos se acumulando, reuniões se sobrepondo e a sensação permanente de que a escola está sempre tentando alcançar a própria rotina.


Em todos os contextos, não apenas o educacional, o comportamento é expressão visível de algo que não encontrou palavra. Onde sequer respiramos direito. E talvez esse seja um dos grandes desafios: perceber que o sofrimento emocional nem sempre chega com nome, laudo ou diagnóstico. Às vezes, ele chega como irritação, queda no rendimento, indisciplina, recusa, ausência, cansaço, silêncio...


Falar sobre saúde mental preventiva na escola não significa transformar toda dificuldade em problema psicológico, nem retirar a responsabilidade de alunos, famílias ou profissionais. Também não significa justificar tudo pela vida do sofrimento emocional porque a escola como toda empresa precisa metas, regras e limites para todos. Não é concordar com tudo e permitir qualquer atitude porque compreender não é retirar a responsabilidade. Estou me referindo ao equilíbrio entre fazer a escola funcionar, sustentar compromissos firmados, sem perder a humanidade, orientar condutas sem desconsiderar a subjetividade, resolver urgências sem deixar de olhar para o que se repete diariamente.


O que um gestor/diretor pode fazer em relação a tudo isso? Do ponto de vista prático, resolver não significa ignorar as urgências, mas criar uma rotina que também cuide do que é importante.


Isso pode começar com algumas ações simples implicando toda a equipe:


1- Mapear o que se repete

Observe e mapeie os padrões de repetição. Os estudantes que sempre entram em conflito, os professores competentes que mesmo não queixando demonstram exaustão. As famílias que acionam a escola de forma recorrente e/ou distratam os funcionários, as turmas com clima difícil, as lideranças sobrecarregadas. O primeiro passo é parar de tratar tudo como caso isolado e dialogar sobre maneiras de lidar.


2- Identifique quem adoece o clima da equipe e não ignore.

Muitas vezes, funcionários insatisfeitos não assumem a própria queixa e disseminam o mal estar. Chame, escute e dê feedback. Cuidar do ambiente escolar também exige coragem para nomear atitudes que enfraquecem o coletivo e orientar novos caminhos de convivência.


3- Criar espaços regulares de escuta da equipe

Não apenas reuniões para falar de planejamento, prova, eventos e ocorrência. Mas pequenos encontros, por setores, para dialogar sobre o mapeamento realizado: O que está desgastando? O que tem se repetido? Onde estamos apenas “apagando incêndio? Quais ações são necessárias?


4- Diferenciar urgência de prioridade

Não ceda à pressão de resposta imediata a tudo que chega. A escola precisa mostrar que tem critérios: o que é conflito, o que é demanda pedagógica, o que é pura ansiedade da família, o que imaturidade do estudante, o que pode esperar e o que precisa de intervenção imediata.


5- Cuidar das relações antes da crise

A saúde mental preventiva aparece quando a escola presta atenção em pequenos sinais: isolamento, queda de rendimento, irritabilidade, faltas frequentes, conflitos repetidos, equipe desmotivada, ruídos de comunicação e sensação de não pertencimento.


6- Avaliar se consegue compreender e resolver as demandas da escola ou necessita de apoio de uma consultoria externa.

Cuidar da saúde mental preventiva na escola é também uma decisão de gestão, mas, certamente, diretores e gestores escolares não precisam carregar tudo sozinhos. O primeiro passo é reconhecer quando a rotina deixou de ser apenas intensa e passou a se tornar um fator de desgaste para si mesmo, estudantes, profissionais e equipes.

Imaculada Braga Campos

Psicóloga | Especialista em Saúde Mental Preventiva e Psicopedagogia Institucional


 
 
 

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