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Educação e Informação

Escola sem fronteiras: internacionalização como caminho estratégico para conectar estudantes ao mundo

  • há 9 horas
  • 4 min de leitura

A internacionalização escolar passou a ocupar uma posição mais consistente nas discussões educacionais contemporâneas porque dialoga diretamente com transformações que atravessam a escola, o trabalho e a própria experiência juvenil. Em um contexto marcado por mobilidade acadêmica, circulação intensiva de informação, avanço tecnológico e crescente interdependência entre economias e culturas, formar estudantes apenas para realidades locais já não responde plenamente às exigências sociais, profissionais e cognitivas do século XXI. Internacionalizar, nesse cenário, deixa de ser uma proposta acessória e passa a constituir uma escolha pedagógica e institucional.


Durante muito tempo, a ideia de internacionalização foi associada a iniciativas isoladas, como intercâmbios, convênios, viagens pedagógicas ou inclusão de disciplinas em língua estrangeira. Embora essas ações mantenham relevância, a literatura educacional aponta que seus impactos tendem a ser limitados quando não estão articulados a um projeto pedagógico estruturado. A UNESCO, ao tratar da Educação para a Cidadania Global (Global Citizenship Education – GCED), propõe que os sistemas educacionais promovam competências cognitivas, socioemocionais e comportamentais voltadas à compreensão de contextos globais, ao reconhecimento da diversidade cultural e ao desenvolvimento de atitudes responsáveis diante de desafios planetários (UNESCO, 2015). Nessa perspectiva, internacionalização não se reduz a experiências pontuais, mas se consolida como orientação curricular e formativa.


A OECD reforça esse entendimento ao destacar que a chamada competência global envolve a capacidade de analisar questões de relevância internacional, compreender múltiplas perspectivas culturais, comunicar-se em contextos interculturais e agir de maneira ética e colaborativa (OECD, 2018). Esse enquadramento desloca a internacionalização do campo exclusivamente programático para o campo pedagógico. Internacionalizar implica rever práticas, reorganizar currículos, integrar temas contemporâneos e promover experiências de aprendizagem que ampliem repertórios intelectuais e culturais. Não se trata de importar modelos estrangeiros, mas de articular identidade local e diálogo global.



Esse movimento exige, inevitavelmente, atenção central ao desenvolvimento docente. Professores permanecem como mediadores fundamentais na construção de experiências educacionais significativas, mesmo em ambientes altamente digitalizados. Pesquisas internacionais indicam que escolas que apresentam maior estabilidade pedagógica e melhores resultados institucionais investem em modelos contínuos de formação, com metas claras, acompanhamento longitudinal e avaliação baseada em evidências (Darling-Hammond; Hyler; Gardner, 2017). A formação deixa de assumir caráter episódico e passa a integrar a estratégia acadêmica da instituição. No âmbito da internacionalização, isso envolve ampliação de proficiência linguística, incorporação de abordagens interculturais, domínio de metodologias ativas, uso pedagógico de tecnologias digitais e compreensão de referenciais educacionais internacionais.


Essa discussão torna-se particularmente relevante diante da expansão da Educação a Distância (EaD) na formação inicial de professores no Brasil. Dados do INEP mostram que a EaD se consolidou como modalidade predominante em diversas licenciaturas (INEP, 2023). Esse processo ampliou acesso e flexibilizou trajetórias, contribuindo para democratização do ensino superior. Ao mesmo tempo, revelou uma heterogeneidade significativa na qualidade dos cursos ofertados. Evitar generalizações é necessário. Existem programas de EaD academicamente robustos, com desenho pedagógico consistente e forte acompanhamento. Contudo, também se observam ofertas cuja fragilidade formativa desafia redes de ensino e instituições escolares no momento da contratação. Nesse contexto, a escola passa a lidar com um dilema recorrente: como assegurar qualidade pedagógica diante de percursos formativos tão distintos? A resposta tende a convergir para uma política interna clara, centrada na qualificação contínua e no fortalecimento do professor como ativo institucional.


Valorizar o docente que permanece em processo permanente de desenvolvimento deixa de ser apenas uma prática de gestão de pessoas e passa a constituir política pedagógica. A internacionalização, nesse sentido, opera como vetor de reorganização institucional. Ela exige coerência entre discurso educacional e prática, entre currículo formal e cultura escolar, entre planejamento estratégico e experiência cotidiana do estudante. A dimensão linguística, por exemplo, amplia seu significado. O ensino de idiomas não se restringe à carga horária disciplinar, mas passa a dialogar com projetos interdisciplinares, produção acadêmica, acesso a fontes internacionais e interações interculturais. O idioma transforma-se em meio de acesso ao conhecimento e não apenas em objeto de estudo.


Ao mesmo tempo, a internacionalização se expressa na cultura da escola. Ela se manifesta em práticas que valorizam diversidade, promovem diálogo intercultural, incentivam pensamento crítico, estimulam colaboração e orientam o uso ético e responsável da tecnologia. Nesse ambiente, o estudante não apenas aprende sobre o mundo, mas vivencia experiências compatíveis com a complexidade das realidades contemporâneas. A escola passa a atuar como espaço de ampliação de horizontes, no qual trajetórias acadêmicas e profissionais deixam de ser concebidas como lineares e previsíveis.


Internacionalizar, portanto, não significa abandonar a identidade local nem submeter-se a uma lógica meramente mercadológica. Significa ampliar repertórios, qualificar processos formativos e alinhar a escola às dinâmicas sociais, culturais e econômicas que moldam o presente. Em tempos de transformação tecnológica acelerada e de debates intensos sobre inteligência artificial, a internacionalização surge como via de equilíbrio ao recolocar o foco em competências humanas — linguagem, cultura, ética, comunicação, colaboração e interpretação crítica da realidade. Transformar a escola em uma instituição sem fronteiras não implica eliminar limites geográficos, mas expandir possibilidades pedagógicas.

Referências

DARLING-HAMMOND, L.; HYLER, M. E.; GARDNER, M. Effective Teacher Professional Development. Palo Alto: Learning Policy Institute, 2017.

INEP – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Censo da Educação Superior 2023. Brasília: INEP, 2023.

OECD. Preparing Our Youth for an Inclusive and Sustainable World: The OECD PISA Global Competence Framework. Paris: OECD Publishing, 2018.

UNESCO. Global Citizenship Education: Topics and Learning Objectives. Paris: UNESCO, 2015.


 Lara Crivelaro é especialista em educação internacional, pesquisadora e executiva educacional, com atuação voltada à internacionalização da educação básica e à formação de cidadãos globais. Fundadora e CEO da Efígie, desenvolve programas, pesquisas e formações para escolas, educadores e estudantes no Brasil e no exterior.


 
 
 

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