Neurociência e Manejo de Comportamento no Autismo: da Reação à Compreensão
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Falar sobre comportamento é, antes de tudo, falar sobre comunicação. Especialmente no contexto do autismo, o comportamento não pode ser reduzido a “desobediência”, “birra” ou “falta de limite”. Na maioria das vezes, trata-se de uma resposta a algo que o cérebro daquela criança não conseguiu organizar, traduzir ou suportar. E quando a criança não consegue dizer com palavras, ela mostra de alguma forma.
A neurociência tem contribuído de forma decisiva para que gestores e educadores avancem nessa compreensão. O cérebro da pessoa autista processa estímulos de maneira diferente. Pode apresentar hipersensibilidades sensoriais, variações importantes na atenção, desafios na regulação emocional e maior dificuldade diante de mudanças e imprevisibilidade. Isso não é ausência de limite; é uma forma distinta de perceber o mundo.
COMPORTAMENTO É RESPOSTA AO AMBIENTE
Uma das perguntas mais poderosas que um educador pode fazer é:O que, neste ambiente, pode estar difícil para essa criança? Barulho excessivo? Excesso de linguagem? Mudança inesperada? Demanda longa demais? Falta de previsibilidade? Antes de corrigir, é preciso compreender. Antes de punir um comportamento, é necessário ensinar outro.
A ciência comportamental demonstra que todo comportamento tem função. Ele pode servir para escapar de uma situação, pedir ajuda, buscar atenção, regular sensações ou comunicar frustração. Quando entendemos a função, conseguimos propor uma alternativa adequada. Sem essa análise, a intervenção tende a ser superficial e pouco eficaz.
A CRISE NÃO COMEÇA NA CRISE
A explosão é o final de um processo. Antes dela houve acúmulo de estresse, falhas de previsibilidade, dificuldades de comunicação ou cansaço sensorial. Se olharmos apenas para o momento da crise, estamos intervindo tarde. Neurociência é, sobretudo, prevenção. Ambientes organizados, previsíveis e estruturados reduzem significativamente a incidência de comportamentos disruptivos.
O ADULTO COMO REGULADOR
Crianças aprendem autorregulação com adultos regulados. Tom de voz, postura corporal, previsibilidade e segurança impactam diretamente o cérebro infantil. Se o adulto perde o controle, o cérebro da criança também perde. Não se trata de “ganhar uma disputa”, mas de ensinar um caminho.
ESTRATÉGIAS BASEADAS EM EVIDÊNCIAS
Há um conjunto de estratégias amplamente respaldadas pela literatura científica que podem transformar a prática cotidiana: rotinas visuais, antecipação de mudanças, instruções claras e curtas, tempo de processamento adequado, reforço positivo bem aplicado e ensino explícito de habilidades sociais.
Essas práticas reduzem a ansiedade e, consequentemente, melhoram o comportamento.
FORMAÇÃO NÃO É OPCIONAL. É ESTRUTURAL.
É imprescindível que a escola invista na formação do professor para lidar com inclusão e manejo de comportamento baseado em evidências. O docente até pode buscar formação por conta própria (e alguns assim fazem), mas a maioria não consegue. Seja por falta de tempo, sobrecarga emocional ou limitação financeira. Esperar que isso aconteça de forma espontânea é transferir para o indivíduo uma responsabilidade que é institucional.
Muitos cursos de Pedagogia no Brasil ainda são frágeis na formação prática para inclusão, manejo comportamental e aplicação de estratégias baseadas em evidências. Há lacunas importantes entre teoria e realidade de sala de aula. O professor sai formado, mas não necessariamente preparado para os desafios reais.
Se a escola não assume esse investimento, o custo aparece depois: rotatividade, adoecimento docente, conflitos constantes e famílias insatisfeitas. O gestor também precisa se formar. Não é possível orientar coordenadores e professores sobre aquilo que não se compreende profundamente. Investir na própria formação é liderança responsável e gestão de longo prazo.
ESCOLA E FAMÍLIA: PARCERIA REAL
A inclusão exige alinhamento com a família. Muitas vezes, os pais chegam exaustos, inseguros e desinformados. É natural. Não é simples criar uma criança com desafios de desenvolvimento. Mostre com clareza que estamos todos no mesmo barco, em prol da criança. É cansativo. É desgastante. É oneroso. Mas é a realidade do cenário educacional contemporâneo. A diferença está em como enfrentamos essa realidade.
Podemos ignorá-la e lidar com crises constantes. Ou podemos estruturar formação, criar rede de apoio e trabalhar com base em evidências. Quando cada um faz a sua parte – gestão, coordenação, professor e família – o que antes parecia insustentável se torna possível.
Inclusão não é leve. Mas pode ser organizada. E quando é organizada, ela transforma vidas. Quando entendemos o cérebro, mudamos nossa resposta.Quando mudamos nossa resposta, mudamos o comportamento. Quando mudamos o comportamento, mudamos trajetórias.

Fernanda King: Neuropedagoga, escritora e palestrante. Atua há mais de 20 anos com desenvolvimento de pessoas, sendo 10 deles como gestora escolar. Especialista em desenvolvimento infantil, inclusão escolar e no uso da IA no ambiente educacional.




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