top of page

Educação e Informação

Quando o que importa é a flexibilidade

  • 15 de abr.
  • 4 min de leitura

Gosto de histórias de acampamento. Acampar é produzir histórias. Vou te contar uma que vi ao dirigir um acampamento para crianças em uma igreja.


Inventamos de fazer uma temporada de férias com 5 dias em um acampamento longe dos pais. Quem viveu isso, sabe o quanto é maravilhoso!

 

Eram cerca de 140 crianças de 7 a 11 anos. A programação era recheada de atividades: momentos de aprendizagem, gincana, jogos, desafios, tempo livre e muita comida. Falando em comida, eu sempre contratava o mesmo cozinheiro e sua equipe para todos os acampamentos que eu realizava. Confiava nele e as negociações eram sempre justas  (algo que é importante de um gestor se preocupar também! Mas voltemos ao acampamento…). 

Fazer um evento desse e correr risco com alimentação é insustentável. Você precisa garantir a quantidade e a qualidade. Qualquer problema com alimentação, coloca a boa condução do evento na lona. 


(Um evento desse é sustentado pelo tripé: programa, alimentação e equipe. Não economize nesses três pilares para garantir o sucesso do evento) 


Bom, no segundo dia desse acampamento, tudo correu super bem. A diversão e o envolvimento de todos estava maravilhosa! Até que, por volta das 10h30, o cozinheiro me procurou para informar que o gás do fogão havia acabado. 


Era uma cozinha industrial, onde o gás vinha daqueles botijões grandes de 45 kg, ou seja, não era comprado em qualquer lugar com facilidade. O administrador do local informou que a solicitação de entrega já havia sido feita no dia anterior e que deveriam ter entregado pela manhã cedo. 


Ficamos naquela de que vai chegar a qualquer hora. Uma hora depois, já às 11h30, nada de gás, a comida estava no meio do preparo e as crianças brincando em um tempo livre já dando indícios de que a fome bateria logo. 


O cozinheiro me informou: “mesmo que o gás chegue agora, não vamos ter tempo hábil para preparar o cardápio previsto”. Bom, já sentiu como eu estava nesse momento né? O que fazer diante da fome de 140 crianças que passaram a manhã gastando energia e de 40 pessoas da equipe? 


Enquanto esperávamos o gás, eu e o cozinheiro conversávamos sobre o que poderia ser feito. Seguir o plano, iria nos levar a pelo menos duas horas de atraso. Foi aí que ele fez uma proposta: posso alterar o cardápio e seguir uma alternativa usando insumos que seria para outro momento? 

Ao que respondi: se isso significa diminuir o impacto no atraso e no desespero da fome, vamos em frente! O gás chegou meio-dia em ponto. Horário que o almoço deveria estar sendo servido. 


Orientei a equipe a seguir com o tempo livre por mais uma hora. E em uma hora a equipe da cozinha preparou uma deliciosa macarronada para 180 pessoas. Não sei como eles conseguiram realizar aquele milagre. Mas esse tipo de coisa só é possível quando o que importa é a flexibilidade. 



Vamos conectar essa história com a nossa prática? 

Planejar é sempre vital para o sucesso de qualquer empreendimento. 


Na escola, a ação de planejar faz parte da cultura. 

Existe planejamento anual, bimestral, mensal, semanal e diário. 


Professores do Infantil e Fundamental Anos Iniciais tendem a ser mais focados no planejamento do que a turma do Fundamental Anos Finais e Ensino Médio. Coordenações tendem a analisar e monitorar os planejamentos. 


E, dessa maneira, a roda vai girando. Mas, às vezes, sinto que burocratizamos os planejamentos. Vejo isso na necessidade de justificar tanto alguns itens do plano, que mais parece uma tese do que um planejamento de aula. 


Acredito que todo plano deveria ser: 


  • ousado: o plano precisa gerar um frio na barriga, uma sensação gerada pela necessidade de superar limites e tentar algo que nunca tenha sido feito.

  • simples: o plano deve ser objetivo, sem muitas justificativas ou detalhamento. Deve ter uma leveza que possibilite flexibilidades na sua execução.

  • colaborativo: o plano pode e deve ser construído por diversas mãos ou ainda avaliado e melhorado por outras pessoas sem que se gere no autor/es uma sensação de invasão.  


Dito isso, uma vez que temos um plano, precisamos fazer um combinado muito sério: o plano pode ser mudado. 


Espalha esse combinado por aí! 


Agora, alguém vai questionar: mas se o plano pode ser mudado, para que planejar? 

Respondo: “Para termos um norte, um ponto de partida.” 


Mudar a partir de um plano, demonstra respeito e sensibilidade com o contexto e com as pessoas. Mudar a partir do nada, demonstra ações ao acaso, sem intencionalidade. Isso é qualquer outra coisa, menos fazer educação.  


Eu tinha um plano para o cardápio do acampamento, um plano que, por sinal, foi construído colaborativamente com o cozinheiro, mas as circunstâncias mudaram. 


O plano era meu mapa, mas ao navegar pelo mapa, em um determinado ponto houve uma disparidade. O mapa indicava algo que não existia no terreno. E agora?


Manter o foco no mapa ou mudar para o terreno?

Manter o plano a todo custo ou flexibilizar para atender a uma nova demanda? 


O plano não pode ser um fim, mas deve ser um meio. 

Através do plano queremos chegar em um lugar, atingir um resultado, desenvolver algo, mas, se as circunstâncias mudarem, é preciso ter flexibilidade para se adaptar. 


Quando o que importa é a flexibilidade, você verá:

pessoas sendo melhor atendidas em suas demandas;

resultados sendo atingidos com mais eficácia;

clima organizacional mais leve e criativo;

processos não engessados no jeito de sempre;

além de um ambiente propício à inovação. 


Seja um gestor e um professor muito bom em planejar, mas seja melhor ainda em flexibilizar o plano para atender seu time e seus alunos. 



Esse texto é parte integrante de algumas reflexões narradas no livro “O que importa? Reflexões de um jornada educacional” de autoria do Jones Brandão


Jones Brandão é professor com atuação para além da sala de aula. Da matemática, passou pela pedagogia e chegou à gestão de recursos humanos. Atuou na direção de escola, sistema de ensino e edtech.

É palestrante, autor de livro e hoje atua como gerente de ensino e inovações educacionais na Arco educação.


 
 
 

Comentários


categorias
logho.png
Telefone:
(11) 5535-1397
Endereço:
R. Barão do Triunfo 550 - Cj. 35 - Brooklin São Paulo - SP
CEP:
04602-002
WhatsApp:
(11) 96855-0247
bottom of page