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Formações técnicas de qualidade facilitam o acesso dos estudantes ao mercado de trabalho e contribuem para aumentar a produtividade das empresas, diversificar cadeias produtivas e ocupar novos nichos de inovação
Por Luciano Meira*
A Educação Profissional, voltada à preparação dos alunos para o mundo do trabalho, é uma das modalidades de ensino que mais cresce no Brasil, mas está aquém do que o país precisa. De acordo com o Censo Escolar 2024, o número de estudantes nessa etapa vem aumentando de forma consistente, com cerca de 2,4 vezes mais matrículas em 2024 em relação a 2023, somando aproximadamente 2,57 milhões de alunos. Ainda assim, isso representa menos de 50% da meta do Plano Nacional de Educação, o que mostra o seu enorme potencial de expansão.
A Política Nacional de Educação Profissional e Tecnológica (PNEPT), lançada pelo governo federal em agosto de 2025, é um marco importante desse movimento. Ela aponta para o aumento da oferta de Educação Profissional e Tecnológica (EPT) em instituições públicas e privadas, o fortalecimento do acompanhamento e da avaliação das aprendizagens dos estudantes, a formação de professores e a articulação com políticas de desenvolvimento produtivo e regional.
Além disso, também vemos o governo federal investindo na expansão de institutos federais e mecanismos como o Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag), que incentiva o investimento em matrículas de Educação Profissional Técnica de nível médio. Esse conjunto de políticas sinaliza que a Educação Profissional deixou de ser um apêndice do sistema para tornar-se um eixo estratégico da política educacional brasileira.
Especificidades da Educação Profissional
A Educação Profissional tem uma particularidade central: a articulação da formação geral, com o desenvolvimento humano e a inserção produtiva do indivíduo em um mesmo projeto formativo. Trata-se de uma trajetória que integra ciência, tecnologia, cultura e trabalho como princípios educativos.
A EPT, quando bem desenhada, se organiza a partir de currículos baseados em competências, muito próximo de situações reais de trabalho, o que exige metodologias ativas, projetos, simulações, laboratórios e forte presença de práticas profissionais. Também demanda diálogo permanente com o setor produtivo, com arranjos regionais de desenvolvimento e com políticas de inovação, pois forma pessoas para ocupar e criar novos papéis no mundo do trabalho.
Outro traço decisivo é a pluralidade de perfis que ela atende: jovens do ensino médio, adultos em transição de carreira, trabalhadores que buscam requalificação e estudantes que conciliam estudo e trabalho. Isso exige ofertas flexíveis, trilhas formativas modulares, certificação de saberes prévios e uma forte preocupação com acolhimento, permanência e êxito.
Benefícios para alunos, empresas e sociedade
Eu acredito que a Educação Profissional é, hoje, uma das alavancas mais poderosas para combinar inclusão social, produtividade econômica e inovação. Para os estudantes e trabalhadores, reduz barreiras de acesso ao mercado, aumenta a empregabilidade e encurta o tempo entre formação e inserção profissional.
Pesquisas nacionais e internacionais mostram que formações técnicas de qualidade ampliam renda, estabilizam trajetórias de carreira e favorecem o reingresso em percursos acadêmicos, como graduação tecnológica e bacharelado. Em um cenário de profundas transformações tecnológicas e de trabalho, a Educação Profissional precisa formar o indivíduo para aprender continuamente, resolver problemas complexos, atuar em equipe e lidar com tecnologias digitais em todos os setores.
Ademais, para as empresas e para a economia, a expansão da Educação Profissional é condição para aumentar a produtividade, diversificar cadeias produtivas e ocupar novos nichos de inovação. Países que conseguiram saltos de desenvolvimento nas últimas décadas investiram pesadamente em sistemas robustos de Educação Técnica, integrados a políticas de ciência, tecnologia e inovação. Segundo estudos econômicos do Itaú Educação e Trabalho, triplicar o acesso ao Ensino Médio Técnico poderia gerar aumento de até 2,3% no PIB brasileiro.
Quando a formação técnica dialoga com os arranjos produtivos locais, ela fortalece a economia regional, reduz gargalos de mão de obra qualificada e impulsiona o empreendedorismo de base tecnológica e social.
Principais desafios e caminhos
Apesar dos avanços, ainda temos desafios estruturais para consolidar um ecossistema de Educação Profissional no país. Entre eles estão:
baixa cobertura frente à demanda: isso significa milhões de jovens e adultos sem acesso a formações técnicas relevantes para suas realidades;
desigualdades regionais e sociais: há concentração de ofertas em determinadas regiões e setores, enquanto outras áreas do país e segmentos produtivos seguem com baixa presença de cursos e vagas;
integração frágil com o Ensino Médio: embora esteja crescendo o modelo de tempo integral e os cursos técnicos integrados ou concomitantes, ainda falta uma articulação curricular mais orgânica entre formação geral e profissional, sob a perspectiva do trabalho como princípio educativo;
formação de docentes e gestores: o desenho de currículos por competências, a articulação com o setor produtivo e o uso de metodologias ativas exigem perfis profissionais específicos, e a política de formação continuada em EPT ainda é incipiente em muitas redes;
governança e avaliação: precisamos de sistemas de monitoramento que conectem dados de matrículas, permanência, conclusão, empregabilidade e produtividade regional, para orientar decisões de políticas públicas e investimentos privados.
Um ponto que considero crítico é enxergar a Educação Profissional não apenas como política educacional, mas como política de desenvolvimento. Quando planejamos a oferta de cursos a partir de diagnósticos regionais de trabalho e de vocações econômicas, a EPT passa a estruturar cadeias produtivas, apoiar a transição ecológica, a transformação digital e reduzir desigualdades territoriais. Isso supõe articular a PNEPT com agendas de inovação, indústria, serviços, economia criativa, saúde, cuidado, tecnologia e sustentabilidade.
O papel dos líderes educacionais
Frente à importância da EPT, considero que liderar nessa área exige olhar para além dos currículos e das grades: é preciso construir ecossistemas de aprendizagem que conectem escolas, empresas, territórios, tecnologias e políticas públicas. Desta forma, convido as lideranças a assumirem três compromissos:
Com a equidade: garantir que jovens e adultos historicamente excluídos tenham acesso a formações técnicas de alta qualidade, com apoio à permanência e ao êxito;
Com a inovação: experimentar novos modelos de currículo, avaliação e parceria com o mundo do trabalho, usando dados e evidências para orientar decisões;
Com o desenvolvimento: alinhar a oferta de cursos às agendas de futuro do país e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU), como transição energética, saúde, cuidado, economia digital, infraestrutura, serviços e indústria criativa.,
Se tratarmos a educação profissional como “bússola” das transformações que o Brasil precisa, e não como trilha de segunda categoria, teremos uma geração de técnicos e tecnólogos que não apenas ocupam vagas, mas criam novos futuros para si, para suas comunidades e para o país.

*Luciano Meira, Head de Pedagogia da Proz Educação, vai apresentar a palestra “Da régua de aferição à bússola da inovação: case de sucesso” no GEduc 2026.
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